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31/12/2013 / natll

feliz ano novo dois

Uma explosão. O barulho muito alto, e ele estava bem ali ao lado. Era ano novo de novo, e sua família nunca deu importância que ele fosse muito mais sensível ao som do que os outros. Porque nasceu assim, simplesmente. Ficou surdo do ouvido esquerdo quando alguém na família resolveu soltar fogos no quintal, poucos anos antes. Perdeu aos poucos a audição direita também, até ficar completamente surdo ao longo dos anos seguintes.

Estar surdo era desconfortável. As coisas se mexiam num silêncio absurdo. Ninguém tinha mais tanta paciência. Ele quase desejou ser surdo de nascimento, assim já seria profissional na linguagem dos sinais e já teria desenvolvido alguns superpoderes com os outros sentidos. Conforto sempre foi a sua prioridade. O melhor lugar da casa era sua cama, em frente da qual havia uma televisão. Uma TV sem cor, mas tudo bem, porque ele só gostava era da dinâmica das imagens.

Aos poucos ele foi percebendo a diferença de distância das pessoas em relação a si mesmo. Uma coisa de energia, talvez. Aos poucos ele pôde saber com mais agilidade quem se aproximava, e outros truques também. Mas ficara mais antissocial. Logo ele, que sempre fizera questão de receber todas as visitas e participar de todos os encontros, sempre muito participativo e animado. Agora se sentia um velho cheio de falhas. Assim ele pensava sobre os velhos. Ele ainda tão jovem.

Deitado, ele observava as bocas das pessoas. Os risos doíam mais. Eram ainda mais silenciosos. Eram como segredos que só ele não podia saber. Antigamente, era gostoso reconhecer as vozes das pessoas: ele não errava nunca. Pelo som dos passos, ele sabia sempre quem estava prestes a chegar.

Às vezes sentia-se um pouco abandonado pela família. Daí alguém dava uma atenção rápida pra ele e ele amava o mundo de novo. Às vezes sabia receber um carinho especial de alguém por dó de sua condição. De qualquer forma, nunca deixou de balançar o rabo pra ninguém. Os afagos valiam mais do que qualquer barulho, e os próximos anos novos ele poderia passar dormindo tranquilamente na sua gorda almofada da sala, com vista pra televisão.

29/10/2013 / natll

49 palavras

Tentando ser escritora, eu agora sou uma contadora de palavras vazias. É deprimente; só não o suficiente pra fazer de mim um gênio verbal. Todos os dias eu fielmente escrevo umas milhares de palavras, todas envergonhadas pela minha pessoa.

Pode o que eu tento escrever não querer ser escrito?

16 junho 2012 – 16h30

07/10/2013 / natll

noite de domingo

CENA: eu, animada, visualizo o futuro próximo, no qual sou a super-heroína responsável pela aproximação e humanização da minha família através do exemplo de comportamento

CORTA PARA

Eu ofendendo alguém e falando um monte de merda e sendo a vilãzinha da situação mais uma vez.

Como isso acontece? Como acontece que a única pessoa que se importa possa acabar tomando o papel de malvada? O inferno está mesmo cheio de boas intenções.

Eu me lembro do aniversário de algumas pessoas. Não dou mais parabéns a ninguém, porque não me importo. Hoje vi fotos da festa de ontem pra uma relativamente antiga amiga, e me senti mal. Senti que estou perdendo alguma coisa. Talvez tempo. Depois senti que na verdade eu estou com medo de perder algo valioso que eu ainda não enxerguei. Mas eu não sinto falta de ninguém. Não sei como seria se não existisse essa relação que eu tenho com o meu namorado e a família dele. Acho que eu tenho a família dele, pelo menos pela parte do pai, pra sempre. Pensando assim, eu não me importo. Mas a verdade é que parar pra pensar nesse meu relacionamento com o ele é meio preocupante. Estou acostumada demais, e não tenho pra onde fugir se isso tudo um dia ruir. O que provavelmente aconteceria de uma vez, que é pra desequilibrar com mais vontade.

São minhas três pendências na vida, coisa pouca, muito simples:

1. minha família desestruturada;

2. minha total dependência financeira dessa família desestruturada, junto a um completo despreparo pra vida real – é onde entra a falta de trabalho e de disposição pra trabalhar;

3. minha total incapacidade social, cujo foco agora nos mostra em close uma feia negligência para com meus velhos poucos amigos – dos quais eu posso bem precisar em algum momento próximo.

Meus planos são lindos. Incluem um apartamentinho pequeno, que pode ter móveis improvisados e pouco luxo, mas nunca incluem ter que dividi-lo com algum companheiro, desses que sempre darão trabalho financeiro, organizacional ou só de encostar na minha incapacidade social mesmo. Incluem uma renda fantasma que eu nunca imagino nos meus sonhos da onde possa vir. Porque não estou disposta a estudar pra passar num concurso, nem a ir atrás de um emprego privado e nem mesmo de começar a escrever logo e ir publicando meus textinhos e vendendo livros baratos por conta própria. Nem isso.

Claro, eu me imagino escritora. Mas eu nunca me imagino escrevendo. Não é engraçado? Eu acho bastante, agora que pensei.

Será que eu dou conta mesmo de um remédio pra mexer mais ainda na minha química de humor? Eu já não sou imprevisível e insuportável o suficiente como estou, muito obrigada? Até agora só senti o calor. E claro, os sintomas do resfriado que resolveu aparecer justo no primeiro dia de tomar meu remédio que eu imaginei milagroso. Isso por causa do meu hipotireoidismo. Ah, sim, a notícia: descobri que tenho hipotireoidismo. Toda aquela falta de energia, aquela preguiça maior que o mundo. Acontece que não era só frescura, no fim das contas. Se duvidar, nem a minha depressão também foi, mas esse assunto eu vou voltar a deixar quieto… agora. Sei que devo procurar por um psiquiatra enquanto estou bem, e não voltar a falar disso quando bater aquela química violenta de novo. Sei mas não faço nada a respeito.

Vou fazer um bazar de como chama? um yardsale da NatL online. Ao invés de doar e jogar fora o resto das minhas coisas, como eu faço sem um mínimo de caridade – muito mais cheia de egoísmo e vontade de me livrar das coisas e deixar meu mundo do meu novo jeito de novo. Mentira, óbvio que não vou. Mas enquanto escrevo meus diários sempre acho que posso tudo. Acho que não conseguiria mais escrever à mão com a agilidade de outros tempos. Como eu conseguia colocar tanta ideia em papel sem deixá-las se perder durante a escrita de cada palavra? Fica difícil até no teclado, quando eu erro tanto as letras em que quero clicar, imagina o tempo que não se leva pra desenhar as curvas de uma letra de cada vez? Sinto muita falta de começar um novo caderno. De pegá-lo fielmente todos os dias sem a menor sensação de obrigação e escrever o que primeiro me vem à mente, até eu me sentir livre de novo. Mas é outra coisa que eu também provavelmente não vou fazer. Vou deixar em “papel” mais essa ideia, e só.

Não sei se deveria estar namorando, pisando em ovos na vida como estou. Mas eu quero. Tanto quanto não quero trabalhar e sinto que deveria já estar juntando um dinheiro há muito tempo. Será que eu ofenderia os meus pais devolvendo o dinheiro todo que eles investiram em mim desde que eu fiz 18 anos? Minha mãe se ofenderia mas não diria nada, o que em si já me ofende de volta. Meu pai, eu não faço ideia. Sinto raiva da minha irmã por não se importar. Hoje me imaginei cuidando dos meus pais velhinhos, minha irmã rica e solteira, preocupadíssima com a própria vida, demais pra fazer qualquer coisa por outra pessoa. Será que ela percebe que são eles quem pagam a vida atual dela, mesmo ela já guardando salário no bolso?

Sou eu a injusta, né? Sei que ao final desse texto (provavelmente do parágrafo) eu vou me descobrir a injusta e minha irmã só está seguindo com a vida dela sem fazer mal a ninguém. Bom, nem bem também, até onde eu posso notar. Mas ela também não sai ofendendo ninguém. Ela faz compras e ela não atrapalha o caminho de ninguém, eu acho. Tirando o meu, mas isso só porque eu sou invejosa e insegura, e por várias vezes já me peguei desejando ser como ela e não sentir o sofrimento dos outros, que é um saco.

Então me resta pra amanhã começar um novo diário, mesmo que seja digital. Me resta pra amanhã ir atrás de um empreguinho de meio período, de um bico legal que me pague pouco e ajude muito, a mim ou pelo menos a alguma outra pessoa legal no mundo. Acabo de me chamar de legal? Vejo progresso.

Então me resta pra amanhã começar a escrever como se eu fosse escritora, e publicar meus contos e crônicas e qualquer merda que eu escrever e continuar seguindo com meus romances e publicá-los como e-books por preços módicos, e assim me fazer conhecida pelos meus textos e parar de tentar levar pra frente um bloguito que é mesmo só pessoal. Divertido de fazer, mas o qual não posso ter pretensão de fazer público. Então me resta pra amanhã ver se acabo logo com esse resfriado pra ver se meu remédio vai funcionar. Porque se minha falta de energia for mesmo por causa da doença, eu vou ficar muito feliz de tomar ao acordar um remedinho que me faça uma pessoa mais ou menos normal. Então me resta pra amanhã dar bom dia pro meu namorado com a mesma alegria de sempre, mas sem esperar nada de volta e nem ter na minha cabeça nenhum relacionamento especial com ninguém, ao mesmo tempo com qualquer pessoa do mundo. Então me resta pra amanhã tentar começar de novo, porque é segunda-feira, quando tudo deve mesmo começar. Então me resta pra amanhã, porque agora eu já comecei a sentir pena de mim de novo. E lá vem a vontade de chorar de novo, que eu já não sei se é da frescura, do remédio, da depressão, da doença ou só da minha criatividade mesmo. Então me resta pra amanhã.

16/09/2013 / natll

rascunho D. ou: tristeza pelo mundo

Que partes da minha vida material eu posso viver sem?

“O que é isso que está acontecendo com o mundo? Estamos virando bichos selvagens? Ou nunca deixamos de ser? Até onde vai a intolerância, a indiferença, a completa carência de empatia? Conseguiremos alcançar a paz mundial algum dia? O que é a paz mundial? O bem coletivo permite a existência de satisfação individual?”

Assim podemos sempre começar a escrever qualquer novo artigo, de forma bastante vaga e batida, levando a violência o mais distante de nós que pudermos. Com muitos questionamentos e nenhuma resposta. Porque todo mundo quer a paz mundial, mas ninguém vai fazer nada enquanto a guerra não chegar dentro de casa. Queremos justiça, a não ser que a vantagem seja nossa.

Esses dias eu tenho estado bastante triste com o clima apático na minha casa. Resolvi largar o medo, sempre acompanhado de uma enorme preguiça, e apontar algumas direções de convivência familiar com as quais eu não estou satisfeita. Tirei o elemento “família” um pouco do comodismo, e também eu mesma, e agora ficar em casa tornou-se desconfortável de novo, tantas são as pequenas adversidades que se acumulam embaixo do tapete e sempre voltam à tona. Isso tudo acontece provavelmente porque eu tenho tempo livre demais e passo quase todo o meu dia trabalhando (ok, às vezes só enrolando) caseiramente.

Mas em casa eu tenho segurança. pode até ser falsa, mas me conforta. essa sexta-feira, que aconteceu de ser 13 mas tanto faz, foi um péssimo dia na minha vida. Muito bom para diários e reflexões e talvez até poemas muito sofridos, entretanto. Mas eu não escrevo poesia. Foi um dia essencialmente desconfortável. Chato, difícil, mas Oh!, como é complicada a minha vidinha fácil, não é? Não estou reclamando, mas todo mundo tem o direito de ficar confuso.

No fim de semana eu recebi a notícia, por uma amiga, de que um amigo muito querido que temos em comum foi assaltado na madrugada dessa mesma dolorosa sexta-feira. A situação se agravou e ele acabou gravemente machucado e levado pro hospital, onde precisou passar por uma cirurgia e perdeu bastante sangue.

Eu tenho estado muito distante dos meus amigos. Distância física mesmo, porque de resto sempre penso neles e os vejo ainda como pessoas intimamente próximas. Mas de que serve tanto pensamento senão pra eu fingir que tudo continua igual, não é? Não tenho encontrado meus amigos simplesmente porque tenho me preocupado bastante com as minhas próprias crises que, sendo fundamentadas ou não, são minhas e terão minha atenção sim, muito obrigada.

Acompanho a vida deles de muito perto, porque vivo no mesmo mundo que você, no qual somos plateia virtual um do outro em infinitos links pessoais online. É assim que eu tenho matado saudades, porque não tenho sido mesmo uma boa amiga e não tenho reservado nada do meu tempo a essas pessoas que eu insisto em dizer tão queridas. A família que a gente escolhe, dizem. Dizem?

Foi um tempo sozinha que eu ainda preciso, o que aconteceu sem planejamento meu e eles aceitaram de forma natural, mantendo-se ainda assim disponíveis a mim, como acontece com amigos de verdade.

Obviamente eu também sempre estou encontrável por ligações e mensagens para os momentos de real necessidade, e foi como aconteceu no fim de semana. Não queria que o contato precisasse se dar por um motivo nem de perto parecido com esse. Mas “apesar dos pesares”, muitos sentimentos foram despertados com essa notícia telefônica. Muitas reflexões sobre a minha própria vida, a minha família, o meu futuro e o futuro dos meus amigos. Que eu desejo ser longo e sempre de alguma forma próximo a mim.

Não sei qual é o meu ponto num escrito como esse. estou claramente confusa e triste. Parece que apareceu uma razão verdadeira para a minha tristeza de menina mimada. Visitei meu amigo, agora estável, e ele até arriscou um sorriso cansado. Tudo vai ficar bem no corpo dele, e do psicológico cuidaremos todos juntos, aos poucos.

Eu até tentaria fazer um texto político contra a violência na cidade, no país, no coração das pessoas. Aparentemente é muito mais fácil falar dos erros no mundo que dos acontecimentos do nosso mundo pessoal. Mas meu foco não são os bandidos, os motivos, os problemas nem as soluções. Porque eu sou uma menina de diários e sentimentos pequenos, de detalhes e de um egocentrismo desmesurado. Acho que o mundo tem lugar pro meu ângulo de visão também.

É uma merda existir violência e intolerância, mas no fim das contas a diferença pode às vezes ser mesmo chata de lidar. Eu mesma queria que todo mundo respeitasse o espaço um do outro, como eu faço. Queria consertar o mundo do meu jeito, mas isso só serviria pra ficar mais óbvia a enorme quantidade de erros que eu penso por segundo. Como você também.

Às vezes fica muito enfadonho sermos peças distintas de uma verdade só. porque assim nunca chegaremos até ela, a não ser quando todo mundo junto resolver se encaixar. Adivinha quando?

Tudo de errado é uma merda, mas a merda mesmo é quando o errado é óbvio e invade o nosso mundo cômodo. Pode ser a vida difícil que for, uma mudança surpresa sempre sacode o chão, equilíbrio se vai e buf, mais uma queda. Não sei se buf é uma onomatopeia oficialmente válida. Eu queria que não existisse violência, mas especialmente, que ela não chegasse perto de mim. Não me julgue, eu estou tão preocupada com o meu próprio conforto que você com o seu. E ninguém ‘tá errado nisso.

Não sei terminar de escrever, como também não soube começar nem conectar o que eu sinto. Eu sinto muito.

13/09/2013 / natll

sexta-feira 13, de setembro

Decidi ir embora da casa dos meus pais. Claro que é mentira, mas mantendo esse pensamento, resolvi rever minha vida material e fantasiar um pouco. Quer dizer, sobre meus pertences e minhas possibilidades. Nada que seja realmente meu, mas presente é presente. Então, pensando como meu, quero reorganizar o que eu tenho nesse mundo-quarto. E assim abrir caminho pra rever minha vida inteira. E começar agir. Agir significando fazer o que eu decidir… e decidir é a parte difícil.

Pensei em ir embora pra casa dos meus avós lá na esquina do Brasil. Curtir a velhice da minha gatinha, aprender algo válido com eles. Mudar de ares, principalmente. Descobrir quais tantas outras possibilidades são essas que eu quero achar. Passagem de ida. Mas isso seria mais uma fuga, como todas as anteriores, que aliviam mas nunca resolvem.

Meu único real laço aqui é o meu namorado, que está por enquanto na carreira de estudante e já fez algumas das escolhas dele. Nem todas me apetecem, então eu acho que enquanto ele termina mais um curso eu posso mudar de ares e me descobrir na vida como uma pessoa inteira e importante. Independente e feliz. Não tenho certeza quanto a isso. Acho muito maior a chance de eu amarelar e continuar do jeito que sempre foi. Mas posso deixar o pessimismo de lado um pouquinho e sonhar, que não me custa nada que não um pouco da minha já escassa sanidade mental.

Hoje também decidi que vou me consultar com um psiquiatra e descobrir que nome dar às minhas frescuras emocionais, dramas e chiliques. A única coisa que eu quero é confirmar que o que eu tenho é só manha ou se tem alguma nomenclatura clínica ou comportamental e de repente um remedinho que possa me ajudar. Me ajustar. Também vou aos outros médicos que eu adiei, fazer meu exame de sangue, doar sangue e depois emagrecer de novo. Fazer muitos exercícios e viver da minha imagem bem como das minhas palavras. Viver como modelo de vida, como inspiração, como uma autoajuda ambulante pras pessoas que precisam de uma força. Essa é a minha vocação. E claro, aquela coisa de consultora em organização também parece interessante demais. Não faço a menor ideia de como se começa um trabalho desses. Nenhum deles. Mas algum passo eu posso dar, mesmo errado. Quanto mais passos errados eu der, mais certo de acertar eu estarei. Gosto de pensar assim e acho que faz algum sentido. Acho que vou recomeçar um diário em papel. Tenho vários cadernos em branco, que são tão lindos que eu tenho dó de usar. Talvez seja um bom momento.

Aliás, quando penso em viver só com uma Mala Vermelha, minha primeira preocupação é onde colocar tantos diários antigos. Já aprendi que esse é o tipo de coisa que não se joga fora. Já joguei tantos dos meus jovens escritos fora e me arrependo de cada um deles. Penso em vários projetos legais que posso levar adiante. Eu tenho muitas possibilidades, já que não preciso trabalhar oficialmente e fazer sacrifícios pra viver. É melhor que não fazer nada e assim eu vou estar aprendendo alguma coisa. Fazer filmes, artigos, fotos e aprender sobre eles, aprender sobre trabalho, sobre mim mesma, sei lá, mas algum aprendizado sempre se tira. Eu realmente espero que sempre se tire algum aprendizado de qualquer experiência, porque eu sempre sofro muito com os acontecimentos. E, não sei, espero que valha alguma coisa. Claro que eu pretendo tomar uma atitude quanto a isso, mas o meu passado já aconteceu e eu não posso mudá-lo e eu gostaria que todos os meus erros não fossem em vão. Porque cometi muitos deles.

02/09/2013 / natll

sobre o resto do mundo

Qual a sua causa? Pelo que você vive? Minorias são a maioria no mundo, as pequenas causas são essenciais aos pequenos envolvidos. E existem causas demais. Qual eu vou escolher? A causa dos artistas ou dos gatos abandonados? E se eu escolho os gatos, o que será dos cães? Como farão os animais silvestres traficados se não houver alguém que lute pelos seus direitos? Direitos esses que a maioria não acha válidos, porque são “só bichos”.

E como alguém pode se preocupar com os animais tendo tanta criancinha passando fome? Tão ingênuas, puras, indefesas. As crianças são o futuro. Os idosos, não. Os idosos já tiveram o seu tempo e agora não passam de peso morto na sociedade. Só que não. Quem vai se levantar pelos velhinhos, às vezes agredidos verbal e fisicamente, sem mais força pra se defender por si mesmos. Velhinhos esses que, em sua maioria, passaram parte da vida criando um jovem pra tomar conta do mundo.

E as causas pelo mundo? Pela ciência e pela paz, pelas mães solteiras, pelos homossexuais; tantas pessoas sofrem violências em tanta forma diferente e acabam caladas à força. E as causas pelos doentes; eles não podem lutar sozinhos enquanto presos numa cama. Maca.

Eu hoje em dia vivo por uma causa muito nobre, simples, mas às vezes super difícil: a minha própria. Entretanto, assistindo a um desenho animado muito bobo, acabei por ter pensamentos sérios. Sobre o resto do mundo. Sei que não dá pra abraçar todas as causas só com os meus braços. Nem com a minha influência. Nem com dinheiro. Acho que se é pra ajudar, é bom que ajudemos até o problema não mais existir. E aí sim passar pro próximo desafio. Quer dizer erradicar uma doença no mundo? Eu acho que é muito mais simples, em cada passo; cada pessoa. Todos os problemas são uma questão de mentalidade. O que os faz na verdade uma missão mais descomplicada, mas às vezes dá preguiça de fazer direito: não entregue o peixe, ensine a pescar. Essas coisas.

Um bicho com um lar de cada vez. Castrado, saudável, amado. Um indivíduo de cada vez, estudado, saudável, com conhecimento suficiente pra lutar com os próprios braços e ser ele mesmo mais uma mente consciente pra ele mesmo escolher as suas causas. Assim se espalha a consciência, o respeito a qualquer próximo que esteja próximo da próxima mente indefesa precisando de ajuda. Todo mundo que não está feliz quer ajuda. Alguns não sabem aceitá-la. Algumas pessoas têm conceitos diferentes do que é felicidade, porque desejam demais. Aprendi que a felicidade está na ausência do desejo. No desprendimento de uma mente liberta.

Quer dizer, cada um por si encontrando harmonia e equilíbrio e o mundo está a salvo. Não é todo mundo que precisa ter um bicho de estimação. Mas castrar um deles é um problema resolvido a longo prazo. Toda família tem um patriarca, uma matriarca. Eles não vão viver pra sempre, então não é nada demais cuidá-los com carinho e com isso aproveitar o egoísmo saudável que todos temos e tirar deles conhecimento, seja do tipo popular ou acadêmico: tudo é conhecimento de vida. Eles erraram e podem evitar que erremos igual.

Daí existem problemas de uma sociedade inteira. Governos burros se resolvem pelo povo. Mas o povo é uma massa e a massa é mesmo burra, não interessa o grau de inteligência individual. É entretanto poderosa quando liderada por uma mente brilhante, e pode virar o jogo. Pouca gente muito concentrada resolve o problema de um povo todo.

O poder da organização começa no simples. A organização física juntamente com as mentes livres formam o poder de um mundo saudável. Equilíbrio individual conjunto à harmonia universal. Não é lindo?

Cada um faz a sua parte, porque de fato tem gosto pra tudo. Não precisamos todos ser médicos pra resolver as doenças do mundo. Até porque resolver todas as doenças do mundo não resolve a fome nem a burrice, não resolve a injustiça humana. Não precisamos todos aderir a todas as causas do mundo, mas precisamos de pelo menos uma. Todas aquelas que conseguirmos abraçar, porque é meio que uma razão pra se estar aqui. E isso definitivamente vai trazer alguma sensaçãozinha, mesmo mínima, que se possa apelidar felicidade.

29/08/2013 / natll

louise

Eu sinto um pouco de raiva, sim. Não é raiva de nada, nem de ninguém em específico. É só raiva, sentimento intransitivo. Pode? Mais um trabalho meu não deu certo. Não sei bem quanto vai durar essa minha transição de estudante a cidadã contribuinte, mas o fato de estar demorando tão mais que com meus colegas de idade tem se tornado uma preocupação crescente pra mim. Talvez seja até esse mesmo o problema: eu tenho tempo e conforto demais pra me preocupar enquanto outras pessoas simplesmente têm de fazer. Fazer o quê, qualquer coisa, ué! Alguma coisa.

Não sei se é a sensação de ser útil ou se é dinheiro, o que eu quero. Sei que tenho 25 anos e escrevo melhor que muito PhD ou muito velhote por aí. Muito cabelo branco, muita pose e roupas ajustadas demais a uma postura que não passa de fachada. As pessoas não são competentes. E no entanto ‘tá todo mundo fazendo alguma coisa. Na maior incompetência. Eu não tenho formação de nada, porque largo tudo pela metade, mas posso mais que mais da metade. Das pessoas que eu conheço. E no entanto não faço nada. Não fiz nada. Até hoje eu não consigo pensar em nada que eu tenha realizado pra fazer o mundo melhor. Eu faço tudo melhor pra mim, no meu quarto. Só.

E agora eu penso tanto em querer que alguém me leia, que meus talentos literários se vão embora também. É muito desejo dentro de uma pessoa tão pequena. E quando eu digo pequena, quero dizer insignificante. Um dia terei um livro pronto pra se tornar best-seller e eu não precisarei nunca mais trabalhar. Eu poderia ser útil em infinitas posições na sociedade, desempenhando vários papéis e… mas que brega “desempenhar papéis”! Quem no mundo almeja desempenhar papéis? Como o mundo continua girando se no fim das contas as pessoas não estão fazendo absolutamente nada por ele?! Cumprir carga-horária.

Não deu certo o trabalho da revisão. O cara duvidou de mim porque não tenho diploma. Mas deu errado mesmo porque eu desejei demais. Porque estava fácil demais, porque eu já estava acomodada demais em menos de uma semana. Eu sei lá porque não deu certo. Sei que esse tipo de tristeza, ou raiva (ok, pode ser decepção), por que as pessoas passam durante qualquer derrota costuma motivá-las a encontrar novos caminhos. Eu só quero deitar no meu travesseiro confortável e fingir que nada aconteceu. Meu nome é Louise e ninguém precisa ter diploma da Sorbonne pra saber que a letra ó não se pronuncia. E no entanto sou chamada de L-o-u-i-s-e com muito mais frequência que o contrário. Tenho crises existenciais só por causa disso. Eu seria outra se meu nome se pronunciasse com um ó.

Gosto de me denominar freelancer. É outra palavra que ninguém precisa ter vivido em Nova York pra saber do que se trata. Mas a verdade é que sou desempregada, porque, muito além disso, sou desprofissionada. Sou tudo o que desejarem de mim, porque sou sagaz e dedicada. Sou do tipo perfeccionista. Mas ninguém quer nada de mim sem um reconhecimento formal. Quem se importa, eu só quero fazer o mundo girar. E o mundo não precisa de mim pra isso e, nossa, como dói.

Eu ocupo um quarto na casa dos meus pais. Um quarto decorado por mim mesma, um conforto raro no mundo, eu sei, uma vida fácil demais. Ninguém nunca me pediu nada em troca. Eu achei que depois dessa decepção eu iria enfiar a cara nos papéis e fazer deles arte. Definitivamente. Iria despejar toda a minha “dor”, iria responder às aflições de tantos jovens perdidos como eu. Iria falar ao coração… estou perdendo a paciência comigo mesma com essa pobreza nas palavras. Iria falar ao coração de leitores sem rostos. Tanto faz. Eu não quero fazer o que tenho de fazer. Quero ser útil, contanto que seja do meu jeito. É patético o quanto eu sou mimada. Não sei se minha alegria era pela segurança de sentir que agora eu tinha uma profissão, algo em que eu era boa, ou se por me sentir útil. Assim poderia demonstrar de verdade a gratidão de ter um canto nessa Terra. Eu sinto como se precisasse justificar a minha existência de alguma forma. E não é decorando meu quarto e nem juntando conhecimento pra mim mesma ou assistindo ao que os outros fazem enquanto pinto a unha e desejo roupas novas.

E revendo o que eu escrevo, eu só falo eu o tempo inteiro. Como todo artista. Que ano! Parece que nada deu certo e eu sinto que no fim das contas eu nem tentei nada pra valer. Nem a tristeza de um fracasso válido eu tenho o direito de sentir. Claro, por isso mesmo a sinto ainda mais forte. Que vida! Das últimas vezes em que tenho escrito, não sinto meu desabafo se terminar. Acho que também não sei mais escrever. Com isso acabo de quebrar um recorde pessoal. Fiz tudo tão impecavelmente bem durante toda a minha vida pra chegar na crise de meia-meia idade vendo-me um acessório quebrado. Tanto faz. Eu não sirvo pra nada e não tenho mais paciência de sofrer por isso. Acho que esgotei meus sofrimentos poéticos na adolescência. Você visita meu blog secreto pra saber do que eu estou falando. Claro, muito já foi apagado. Você entra escondido na minha casa (que é dos meus pais), vai até meu quarto (que não é de ninguém) e lê meus diários. Eles são muitos. Esgotei meu talento ali. Eu era uma criança-prodígio e escolhi não ser mais nada. Acabei.

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