Quantos segundos são necessários pra recuperar o atraso de uma vida infrutífera? Eu imagino um trem que parte pontualmente e ela que chega correndo a tempo apenas de vê-lo começar a deslizar. Ela troca a passagem. Obrigada, funcionária da companhia, pela compreensão. O trem seguinte parte em quarenta e três minutos e demora cinco horas a mais pra chegar onde ela gostaria de já estar agora. Faz frio.
Está fora do mapa a chance da bela cena na qual ela é recebida por seu amor, impaciente à sua espera. Ele entre tantos outros amores de outros amores, tantos rostos, tantos encontros e partidas. Fora de cogitação aquele encontro dramático. Nada de romance. Porque a vida nem sempre é um filme de cenas bem ensaiadas. Não é perfeita e definitivamente não pode ser planejada.
Faz frio. Ela tenta dormir, mas acordam-na ora preocupação, ora ansiedade, fome ou decepção. O telefone não funciona e ela não pode avisá-lo dos imprevistos. De qualquer maneira, duvida que ele conseguisse estar na estação a tempo de recebê-la. É reconfortante ser ela a causadora oficial da situação. Quase sente ter o controle da vida de novo.
Chega o trem. O último naquela noite, que corre durante a madrugada seguindo um caminho muito mais longo. Em algum momento ela precisa descer e trocar de trem. Sozinha. Mas agora só o que importa é que o banheiro seja liberado.
Seria pior seu trem ser o último do dia e ela precisar esperar o dia seguinte? O que é mais épico? O que é mais cinematográfico? O conforto de existir ainda um trem naquele dia é falso? Não queria ficar parada e fazer ativa uma mente pessimista e inventiva. Não queria morrer de frio, então foi melhor sair de lá. Era melhor agir e senti-se heroína de alguma história que valesse a pena. Assim pensando ela até sente aumentar o ânimo.
Então ela dorme. Agarrada à sua bagagem, apegada à única familiaridade que lhe resta. Não existe certeza, não existe relacionamento, agora nada existe que não a silenciosa mala repousada serena ao seu lado. Desgastada, suja. Imóvel e fria. Assim ela se sente. E dorme de exaustão pela vida. Pelo sofrimento prévio daquilo que ainda não aconteceu.
Em algum outro momento, pode ser futuro ou passado, ela e seu amor pegariam um trem errado. É primavera e a temperatura é confortável. Eles riem da situação e aproveitam o imprevisto com alegria. Tudo é muito diferente e eu me pergunto mais uma vez se a primavera é conveniente e óbvia demais pra ser acaso. E não acontecem acasos, sortes e azares assim improváveis na vida? E não é dessas situações que a boas histórias nascem? Conto de pescador em algum momento é verdade. Em algum lugar, pra alguém que já existiu. Ou vai existir.
Agora nada acontece. Tudo é lenda ou esperança.
Ela acorda com o cobrador do bilhete. Qual a próxima parada? Estamos na fronteira, ele responde. Ainda falta muito tempo, a viagem mal começou. Um cachorro cheira a sua bagagem morta e não se interessa a mínima. Ela quase sente dó da mala vermelha, como sente de si mesma. Sorri pro senhor gordinho que fala com ela num sotaque forte. Ele não sorri de volta, como um personagem ensaiado pra fazê-la a verdadeira vítima de toda essa saga. Tanto faz. Ela compra um sanduíche. Não porque tem fome, mas porque lembra daqueles livros em que a última casa amiga fica pra trás e nada mais é confortável. Sente vergonha, uma dona quixote. Sente vergonha por sentir vergonha de alguém tão amável como aquele simplório herói. Come. Chora. Dorme.
Acorda com o novo sol refletindo na janela. Não é bonito. É lindo, porque a tristeza é uma bailarina impecável. Bonito, não. No trem não faz tanto frio. A poltrona é confortável e o sanduíche desceu como um banquete. É essa a minha maior aventura? Ele, quanto tempo ficou me esperando na estação? Ele sequer foi me receber? Ele vai me esperar sair de cada trem que chegar ali? Que cena linda! Ele atolado de trabalho, talvez me deixe uma mensagem no celular com instruções de como chegar em casa. Não era assim que eu queria começar.
Falta tão pouco tempo e tanto ainda por acontecer. Há muito a ser escrito, contado não sei ainda como. Talvez tudo não passe de um diário de bordo. Mas ela tem a imaginação de Quixote, o que vale uma vida cheia de um mundo repleto. Repleto do que quer que venha.
Escrever o quê? Escrever como? Cá estou de novo chorosa. Pode ser tensão menstrual, pode ser depressão, pode ser inferno astral, pode ser frescura, pode ser terça-feira de gira, pode ser a merda que for, não é normal eu ser incontrolavelmente triste sem nunca ter um motivo justo.
Minha mãe perguntou o que eu quero de aniversário. Sumir. Disse que não queria nada, porque me basta não existir. Na cabeça das pessoas eu digo essas coisas porque sou dramática. E acabo soando ofensiva. Na minha cabeça, eu faço sentido com frases pouco lógicas. Assim me expresso melhor que os outros. Desculpa aí. A única coisa que eu quero é não ser pressionada a fazer aniversário. E ter que ouvir amigo fazendo drama porque eu não comemorei ou porque não convidei ou a merda que seja. Foda-se. Quero ficar sozinha, pode ser? Que tal me dar de presente a liberdade e a minha própria escolha?
De aniversário eu quero um carro, um apartamento, uma profissão e um salário. Quero autoestima, determinação, segurança e confiança em mim mesma. Respeito e amor próprio. Quero os amigos certos e que os outros sumam. No meu aniversário eu quero que o mundo seja o lugar certo pra se viver. Quero uma cabeça equilibrada sem ter que encontrar um psiquiatra que me dê os remédios que consertem a minha loucura química a um custo altíssimo no resto do meu corpo.
Ok, que passando o meu aniversário eu provavelmente volte ao normal. Se é que em algum momento eu possa ser normal. Isso tudo é inferno astral? Não acredito em nada dessas coisas, não tenho porque ter assumido um estado psicológico desses. Preciso de meditação e decisão firme. O que quer me dê vontade de ser e fazer no meu aniversário, quero que as pessoas calem a boca e não discutam. Claro, não vou obrigar ninguém a fazer nada. Quero dizer que se minha vontade for ficar em casa, no meu quarto, assistindo televisão, é isso que eu vou fazer. Pra mim, aniversário é dia de rei. Dia de ditar as regras e ver como seria o mundo se as pessoas simplesmente me obedecessem e se moldassem ao meu ideal. Não se trata de tratar as pessoas mal, só de escolher o meu melhor durante aquele dia. É só um jogo. É o que tento fazer pro aniversário dos outros, mas nunca fizeram isso por mim. As pessoas, no entanto, vivem por si mesmas, o que faz o maior sentido, mas me cobram uma baboseira social de comemorar a data e convidar pessoas e fazer disso um ritual ridículo o qual eu não quero seguir. Vê? No meu aniversário, mais do que em qualquer dia, eu tenho que me adaptar ao que os outros querem. Por que não então o contrário?
Quero parar de fazer aniversário até que eu tenha conquistado qualquer coisa da minha vida. Maturidade emocional, que seja. Paz interna. Só quero coisas pra mim mesma, mas assim espero ser melhor pros outros. Quero parar de ser egoísta e passar a enxergar que existem outras pessoas com quereres e sentimentos e ideias. Essa lente que eu uso é às vezes muito solitária.
Quero não sentir mais a necessidade de controlar o universo. Quero finalmente deixar de querer tantas coisas.
O sonho da minha vida era ter uma mala. Eu precisava comprar uma mala pra que eu pudesse dizer que eu tinha uma mala. Amanda, minha melhor amiga da terceira série, tinha o sonho de ganhar um vestido como o da Cinderela. Só que rosa. Sugeri o da Bela Adormecida, que já trocava mesmo de cor e ela teria dois em um. Amanda parou de falar comigo. Mas eu admirava a sua convicção e sentia a frustração de não ser apaixonada por nada na vida. Na sexta série, o sonho da minha melhor amiga Eduarda era namorar o Rômulo, da outra turma. Eu ainda não tinha nenhum. Sonho, eu digo. Também nem namorado, e pelo sofrimento concentrado de toda a ala feminina da minha turma, desejei nunca ter esse desejo.
Com catorze anos eu resolvi que teria um sonho tão importante quanto o da minha mãe, que era se livrar financeiramente do irmão caçula sugador de dinheiro. Minha melhor amiga na época teve que ir embora porque o pai dela, ao se aposentar, resolveu que seu maior sonho era morar na Europa. Então levou a família e esse não era bem o sonho da Letícia, não, mas ela foi e me mandou umas cartas muito alegres depois. O sonho da Letícia era ser pintora. Ela tinha umas ideias contemporâneas, e eu acho que contemporâneo é um assunto delicado, mas nunca dei minha opinião sobre isso a ela, pra não correr o risco de deixá-la sem sonho como eu. Além de o caso “Bela Adormecida” ter sido uma lição na minha vida.
Letícia foi embora numa terça-feira à noite. Eu passei a tarde na casa dela, vizinha à minha, pra ajudar com as malas. Muitas malas. Letícia não sabia o que priorizar pra sua nova vida de seis meses de visto turístico morando na casa de um tio em Lisboa. Ver aquela coleção de tralha que Letícia tinha e da qual “não poderia passar tanto tempo sem” me fez agradecer pelo meu quarto humilde. Três malas eram só dela, mas a família tinha mais gente. Boa viagem!
Enquanto eu procurava por uma nova melhor amiga – porque eu tenho essa grande necessidade de preencher cargos para as pessoas à minha volta – Letícia me mandou a primeira carta com uma foto dela sorridente e com pouca roupa no que parecia a versão europeia da Praça dos Três Poderes, mas na beira do lago. Ironicamente, ela estava no Monumento aos Descobrimentos, na beira do mar. Mas é quente assim na Europa? Senti saudade dela e muita vontade de pegar minhas malas e ir ver o mundo também. Tirando que eu não tinha uma mala.
De cada cidade por que Letícia passava, mandava um postal. Não tive coragem de arrumar uma melhor amiga nova e achei que uma à distância ainda era um bom negócio. Roma, Praga, Londres, Dublin, Paris, Reims, Lyon, Genebra, Milão, Bruxelas, Amsterdam, Bruges, umas cidades que eu nem sabia que existiam. E sempre checava no mapa pra conferir se ela já não ‘tava aproveitando paisagem pra inventar cidade nova. As pesquisas que eu fazia na internet me faziam imaginar quais lugares eu visitaria um dia. Cada vez eu fantasiava viagens mais ousadas e pensava no que levar na mala quando seguisse minha vida nômade. Tudo já estava arranjado na minha cabeça. Assim percebi que meu maior sonho era ter uma mala. Não era tão importante quanto o sonho da minha mãe, mas era agora o meu próprio sonho de infância.
Corrija-me: “esse sonho na verdade é viajar”, e estás errado. Viajar parece dar trabalho. Pra mim, ter a mala era a carta branca pra eu começar a viajar, mas a verdade é que eu morria de medo de pisar fora de casa. Além da preguiça. Marquei no atlas os lugares onde já tinha ido: Caldas Novas, Pirenópolis, Corumbá, Cristalina, uns pequenos municípios em beira de estrada, Rio de Janeiro, Salvador.
Eu fazia listas e planejamentos, até um dia separei uma bagagem fictícia, mas logo pus tudo de volta no lugar. Eu também não saberia do que abrir mão dentro do meu quarto-mundo.
No Natal pedi uma mala. Ganhei um vestido bonitinho e uns cremes naturais de qualidade. Gosto do Natal porque tudo tem qualidade. Não ganhei a mala porque é uma completa inutilidade pra uma pessoa como eu, que não viaja. Quando minha mãe diz algo assim, ela está sempre se referindo a si mesma, mas eu não quis começar essa discussão mais uma vez. Esse desejo de ter uma mala é fase que vai acabar quando Letícia chegar, ela diz. Então eu espero a fase passar com a pele esfoliada e hidratada.
No ano novo Letícia estava em Paris. De novo. Dessa vez passando o frio que pra mim caracterizava o continente europeu. Na foto que ela mandou só se viam seus olhos. Minha mãe decidiu virar o ano com uma amiga para Pirenópolis. Claro, eu tinha que ir junto porque sou menor de idade. Fui desanimada porque Pirenópolis já estava marcada no meu mapa. Nossas coisas iam juntas numa malinha velha da minha mãe. Todas as poucas viagens que fizemos foram assim. Com meu pai fui ao Rio, de mochila nas costas. Sempre tive o sentimento separatista de poder organizar minhas coisas no meu próprio espaço, do meu jeito. Por isso meu quarto sempre foi minha fortaleza. Na mala, guardava minha parte em uma sacola separada e minha mãe dizia irritada que suas roupas não me passariam nenhuma doença.
Mandei a única carta pra Letícia em um postal de Pirenópolis. Ela ia achar que era piada, mas eu me senti mal em não responder nenhuma das correspondências dela.
Letícia voltou no carnaval, a tempo de pegar o ano letivo com a mesma turma. Passou o semestre anterior estudando por correspondência, e eu achei isso meio fachada, mas ela sempre foi estudante modelo e disse que o negócio funciona bem com gente honesta e disciplinada. Não é o meu caso, que escorrego na honestidade. Letícia voltou cheia de história e com mais três postais pra mim. Um total de infinitas viagens que eu nunca tinha feito.
Começavam os últimos três anos de escola; o início do resto das nossas vidas, em que só se usava o tema vestibular. Com isso esqueci dos mapas e postais e esqueci da minha mala. Fiz razão à minha mãe e ela deve ter ficado bastante satisfeita com isso. Esqueci também de várias outras coisas, como sanidade, tempo livre, cortar cabelo, preencher os cargos das pessoas na minha vida, arrumar o quarto. Passei no vestibular. Letícia também, mas nós já não éramos tão próximas. Eu não era mais próxima de ninguém.
No primeiro semestre, eu e meu cabelo na cintura estávamos empolgados com a nova fase. No terceiro semestre eu estava ansiosa pelo fim e aqui estou no quarto da minha casa escrevendo qualquer coisa só pra não mexer mais no seminário que apresento amanhã.
Continua…
O mundo acabou. As vibrações mudaram e nós hoje vivemos uma projeção criada por nós mesmos (daquilo que provavelmente nunca foi). Somos Sonhos. Ilusão. Tudo pode acontecer e eu posso ser quem eu quiser. Não existem mais regras, e leis já não dizem nada. Pessoas não são ninguém, e nada é material. E tudo é exatamente como antes. Nada tremeu, nenhum mar mudou de rumo, o céu continua azul ou cinza. Bichos vivem e plantas estão ainda de pé. Nós também. Se quisermos. Como queira.
Eu agora decidi que dei certo. Não preciso sentir nenhuma vergonha de projeções humanas que não passam de outras versões de mim mesma. Não preciso ter memória nem aspirar nenhum porvir. Eu agora sou tudo que eu nunca consegui. Da noite para o dia. Talvez tenha acontecido ao meio dia. Talvez o processo tenha começado no dia 12-12-12 e só terminado agora. Eu sinto a diferença, mas não consigo identificar o momento de troca. Talvez a mudança esteja acontecendo desde que eu nasci. Desde a humanidade. Desde o mundo. Desde o universo. Eu não sou nada, mas hoje isso me dá poder. Eu sou nada e posso tudo.
Não existe mais pudor no nu. Nem no sexo. Nem na falta dele. Violência não tem mais significado. Flores. Não existe mais belo e feio, menos ainda certo e errado. Existe natureza e magia. Tudo pode acontecer. Eu sou imprevisível, mas prevejo o futuro inteiro. Sei o que vai acontecer, ainda que tudo seja um enorme mistério.
Nunca estive tão sozinha, e o mundo nunca esteve tão completamente bem montado. Tudo faz sentido, eu sou todos vocês. Ninguém existe. Nada é absolutamente tudo o que existe. E eu acho isso lindo. Escolhi assim. Escolhi o fascínio e a graça. Escolhi enxergar a perfeição no presente curvo. Descobri que ela sempre esteve lá. Me bastou mudar sua definição.
As palavras não dizem mais. A língua é o pensamento direto. Rápido, não dá tempo de criar imagens pra ele. Não existe visão. Nem som. Nem eu sei mais se pedra é cheiro de comida ou se tem sabor áspero. Música é memória. Nada disso existe e eu me sinto flutuar. Me sinto matéria sabendo não ser. O mundo acabou e eu continuo aqui, talvez porque nunca tenha mesmo estado em lugar nenhum. Tanto faz, eu escrevo.
É o bug do milênio, apesar de o tempo ser pura poesia, e essa coisa de arte é só tudo, como nada mais é. Contar espaço é a mesma coisa que chegar atrasado. Dançar preenche o movimento. A estagnação é o que existe de mais concreto na minha percepção que eu ainda só sei chamar de sensorial. Silêncio era uma palavra que vinha sozinha seguida de um ponto. Mas isso seria poesia, então agora o ponto vem. Em qualquer lugar. Momento. Sou quantos corpos eu quiser, e o amor continua universal. Estávamos certos, apesar de tão errados.
Não consigo dizer a decepção que é pra mim o mundo terminar sem o enredo de um drama épico. O mundo terminou e nenhuma pessoa no mundo o sentiu. Que tristeza não ser parte da mudança. O mundo terminou e se esqueceu de nós. Que sou só eu. Completamente apaixonada por. Você morreu dormindo ou ainda respira enquanto vive seu sonho preferido?
Não sei se é mais bonito deixar perguntas ou inventar respostas. Nada é verdade de qualquer forma, e eu só quero dançar. Nunca senti tão macio aquilo que é oco. Não sinto nada e parece vento. Não tem temperatura e se rasga na maior calmaria. Aquilo que eu ainda procuro como chamar. Chamar não existe mais, é muito confuso concentrar num raciocínio.
Quero que o mundo exploda comigo dentro. Pra assim eu sentir que participei de algum grande evento na vida. Convidada de honra. Quero explodir com o mundo dentro de mim. Parir tudo de novo e esperar que dessa vez dê certo. Tenho medo de não conseguir inventar uma boa nova história. Eu posso tudo e essa é a parte mais difícil. O que eu faria melhor? Por que fazer alguma coisa é necessário? Talvez eu resolva que não é, e passe a unicamente ser. Assim, de forma abstrata. Talvez eu passe despercebida.
Como faço com meus planos e a casa nova? Quem é quem e eu não quero terminar com uma interrogação. Eu resolvi responder. Eu não sou nada e pela primeira vez me sinto inteira assim. Não senti vibração nenhuma mudar. Daqui eu vejo um céu alaranjado. É pôr-do-sol. Não sei como vai terminar, mas eu achei o meu lugar. Eu vou mudar o mundo, ele existindo ou não. Pergunte o que quiser, aqui estarei eu esperando qualquer diálogo e não preciso de sentido.
Câmbio.
Eu adoro sofrer olhando a paisagem inatingível da estrada. Se eu não tenho com o que sofrer, finjo que sou outra pessoa, que perdi alguém ou que nunca encontrei. Todo mundo pode ser meu único amor eterno, mas eu normalmente não encontro um rosto pra usar de molde. As possibilidades são tão infinitas que não existem. Já que o infinito é uma farsa pra nos colocar, humanos, numa posição de mais humildade.
O trem pára em cidades que eu não conheço. E eu digo isso estando em um carro, porque a fantasia sempre soa mais bonita. Nos trilhos eu desejaria estar voando. O inatingível sempre parece mais interessante, disse Chaplin. Talvez ele não tenha dito nada disso, mas então digo eu por experiência própria.
Alguém já dormiu na sombra daquela árvore? A árvore já passou da minha janela faz tempo, e várias outras, e eu nunca vou saber quem dormiu em que sombra. De qualquer forma as árvores são infinitas, por pura preguiça de se contá-las uma a uma. As pessoas não são infinitas, porque são mais importantes, mas as árvores podem bem ser. Nada humilde nisso. O infinito é o que quisermos fazer dele. São tantas as árvores como são os rostos possíveis e eu nunca vou ter um amor só. Neste momento eu quase não me importo, mas então como manter o sofrimento, que é muito mais pomposo que o amor?
Eu começo o dia sofrendo, porque descobri que é assim que eu decodifico o que estou pensando. Passado tudo pro papel, eu volto a viver a vida tranquila da realidade.
Sofrer emagrece, eu me alimento das próprias lágrimas que escorrem. Me alimento de falsidade, de metáfora, que banquete!
Tenho vontade de escrever uma carta do meu amor pra mim. Seria a carta ideal, ele saberia exatamente o que eu sinto e sentiria na mesma sintonia. Não importa que ele seja eu, em uma carta importa apenas uma boa grafia.
Somos péssimos jogadores. Ou mudamos de jogo ou paramos de brincar.
Eu quero escrever o que as outras pessoas pensam.
Nasceu o filho do meu irmão. Evitando o constrangimento social de ser impossível distinguir o sexo de um bebê, furaram-lhe um par de brincos nas orelhas. Que mocinha linda, todos exclamam. De roupinha cor-de-rosa. Ela se chama Maria, porque hoje em dia é chique dar nome passado. O primeiro filho é Antônio. Antônio tem 62 anos desde que nasceu.
Por seis meses eu evitei o encontro. Não porque eu seja preconceituosa ou generalista, mas porque todas as crianças são iguais e provocam reações previsíveis em todos em volta. Sempre. Um fenônemo difícil de entender; um fato sem contestação. Eu sei porque já tenho outro sobrinho e caí na mesma armadilha há menos de três anos. Algumas lições a gente aprende na primeira queda.
Meu irmão teve o bom senso de nos evitar uma enorme dor de cabeça e não me chamou pra ser madrinha. Antônio nos proporcionou intermináveis discussões e eu, com razão, insistia que seria melhor escolher alguém próximo, de preferência com maior senso de responsabilidade. Com isso eu sugeria qualquer um que não fosse eu. Assim pude faltar o mais irracional ato humano que é o batizado cristão. Estive no de Antônio e o grande assunto na igreja era minha “negligência para com a família”. Eu deveria ser mais presente e visitá-los com mais frequência. Esse tipo de papo chato que me faz pensar duas vezes quando me pula uma loucura momentânea de ir visitá-los. De qualquer forma, Antônio e Maria não são mais filhos do pecado. Obrigada, deus, pela família pura da qual faço parte.
Por seis meses eu consegui evitar o encontro porque meu trabalho é imprevisível e meu irmão se esconde do outro lado do país, num município hors-mapa com menos gente do que o faz relevante para o mundo. Neste feriado minha sorte tirou folga e, como por princípio eu não minto mentiras gordas, e porque não enxerguei nenhuma conveniência que a vida às vezes oferece, tive que concordar. Por cinco dias abri mão da minha vida própria e fui ao encontro da família.
A estrada foi asfaltada.
Chego na casa de Antônio e Maria. Um mundo de plástico colorido decorado por eles mesmos. Carrinhos e brinquedos e panos de utilidade variada espalhados pelo chão. Muitas formas inusitadas, num estilo arte contemporânea meets comunidade hippie. Antônio chora porque quer um carro elétrico. Eu também queria um, não ‘tá fácil pra ninguém. Surge da cozinha minha cunhada sorridente. Me cumprimenta procurando algo em minhas mãos. Entrego a ela minha bolsa. Minha tia aparece perguntando o que eu trouxe. Uma mala pequena. Que te interessa?, eu penso. Cadê o presente, ela pergunta. Que presente, gente, qual o evento? O presente a preencher o ego familiar, com desculpa de ser pra neném. Esqueço sempre dessas coisas. Aparece meu irmão com Maria nos braços, corrigindo minha tia sobre não existir a menor necessidade de um presente. A expressão da minha cunhada discorda.
Com a chegada da menina, a sala se enche de sons que não entendo. Todos perderam repentinamente a habilidade de falar, parece que entrei no mundo paralelo dos sorridentes dinossauros multicoloridos dançantes. Somos uma família feliz. Minha cunhada, com cara de três semanas atrás, veste uma roupa manchada e um treco roxo pendurado no vestido. Panos e plásticos esquisitos são o dress code, toda a família participa. Tatibitati é a etiqueta para o evento. Perdi essa aula. Dar bom exemplo parece estar fora de moda, tenho medo de a criança nunca aprender a falar direito. Concluo que técnicas de criação de filhos são conceituais demais para o meu entendimento.
Tento manter uma conversação interessante com uma das minhas primas. Minha melhor amiga de infância, a primeira a se mandar da cidade. Uma mulher incrível, a pessoa mais inteligente que eu conheço. Enquanto longe da neném. Sinto perder meu último elo quando somos interrompidas para ver Maria dizer “eehh”. Perco minha prima para a tendência tatibitati. Vejo que Maria se diverte com um saco de pão. Adoro ter razão e sinto pena de quem comprou a Hello Kitty.
A cada minuto ouço me chamarem: todos devem ser testemunhas de cada “eehh” e “aaah” e balançada de pano que faz Maria. Vejam, ela está sacudinho a Hello Kitty! Todos olham. Alguém grita meu nome de novo pra que eu veja também. Pelo olhar triunfante, descubro ser o presente da tia Glenda. Todos sabemos que a menina sacudiria qualquer objeto mais próximo. Ufa, Hello Kitty marca um ponto. Consigo conversar com alguém quando Maria vai mamar. Mas o assunto é ela ser uma criança verdadeiramente especial. Talvez ela salve o mundo, mas já conheço esse filme, resolvo discutir carros elétricos com Antônio.
No dia seguinte acordo cedo e compro vários pacotes de fraldas. Resolvido o problema do presente obrigatório e só Maria vai poder aproveitar. Minha tia adora um presente volumoso, fiz questão de embrulhar tudo junto. Em casa as pessoas começam a acordar. Maria não, Maria acordou às 5h30 e teve a gentileza de anunciar o sol a todos com um choro que as pessoas acham delicioso. Todos voltam a dormir deixando a mãe sozinha com as consequências de seus atos.
Minutos depois de eu entrar em casa com o presente, aparece Maria em algum colo pra dar bom dia a todos que aparecem na sala aos poucos. Obrigatoriamente o bom dia é individual, e ela é enfiada na cara de cada um pra uma troca de sons ridículos, puxadas de cabelo e risinhos e tudo é lindo. Eu no lugar de Maria me sentiria ofendida com essa gente imitando minha ignorância com a fala. Daí chega a minha vez e eu tenho que fingir que tudo é lindo enquanto ela aperta meu nariz e me dá uns tapinhas na cara. Depois dessa acho que posso tomar meu café-da-manhã. Mas só até alguém me fazer perceber que sou a única a não dar atenção à menina no andador. Que graça, agora posso comer?
No segundo dia se repete o ritual de bom dia. E em todos os outros. E mais algumas vezes ela faz barulhos e sorri e morde um brinquedo genérico (tia Glenda olha torto) e balança tudo o que pega, coloca a chupeta ao contrário, que linda ela é! Que esperta, não é? Que menina especial! Pelo menos cinco pessoas em volta por vez. Essa criança não sobreviverá à primeira rejeição.
Ela é linda, eu não vou negar. Já passou da fase em que todos os bebês são pavorosos e por sorte ela se tornou bonitinha. Não é sorte de todos. As pessoas falam pela menina em primeira pessoa. Mamãe, tloca a minha faldinha, mamãe! Antônio é a pessoa mais madura e ecológica deste lugar.
Quinto dia, eu consigo precisar sair cedo pra adiantar trabalho antes de a semana começar. Maria está com o saco de pão na mão e não se interessa em apertar a minha cara. Terminado o bom dia, corro pro carro. Ela está usando a minha fralda. Saio com orgulho.
Muita inspiração e pouca prática. Muitos planos e coragem nenhuma de sair de casa. A poeira, agora mais atrevida, já não se contentava com os cantos e corria livre pelo piso de madeira. Fazia curva nos pés dos móveis e se instalava nas roupas jogadas, nas embalagens vazias ou onde quer deixasse a sala mais nojenta pra sua imaginação. É indescritível. Acima, acampamentos aracnídeos abandonados formavam tecidos como se o próprio apartamento fosse uma tenda militar. Tudo ali se assemelhava a território de guerra. Não que se precise ter visto um pra imaginar. A louça limpa acabara, então ele passou a comer batatas e biscoitos de pacote, que também acabaram e ele acordava agora para o segundo dia de jejum.
E esse é o máximo de ação da cena. A vida dele acabou por virar uma grande descrição, isso só pra que as páginas não passem em branco. Ele pensava muito, o tempo inteiro. Ele enxergava, julgava, sentia e planejava. Mas da parte dele, nenhuma ação, nada a oferecer que apática passividade.
O telefone tocou, e ele achou que poderia atendê-lo e começar a dar a volta por cima com aquela reação. Era engano.
