maurício

Você e o Maurício trabalharam juntos nas jovens, finadas épocas em que ambos desempenhavam a função de rapazes da copiadora na MadX, uma empresa sem escrúpulos que felizmente declarou falência três anos depois de você ter saído de lá. Maurício se ferrou e afundou junto naquele barco.

Hoje aconteceu de você se lembrar do Maurício, que era, sem sombra de dúvidas, seu melhor, possivelmente único amigo na empresa. Primordialmente pelo simples, porém essencial fato de que, apesar de odiarem o serviço bobo e repetitivo, tenham ambos desenvolvido a capacidade de se divertir com todas as pequenas besteiras de cada dia de trabalho. Eram considerados os grandes patetas da firma, e por isso ninguém mais suportava vocês dois. A alegria alheia incomoda, como já se sabe.

Aos sábados, vocês iam à praia jogar vôlei; nem futebol, nem futevôlei: vôlei. Motivo suficiente para bullying (que na época ainda não tinha nome nem a grande importância que tomou na sociedade) era também o comum interesse em quadrinhos japoneses, que se chamam mangás e não têm nada em comum com as revistinhas da Mônica, como costumava provocar a dona Carmen, da limpeza noturna. E todo mundo mais.

Você pensa em ligar pra ele, combinar de se encontrarem “qualquer dia desses”. Mas o dia de hoje entra no seu caminho e você deixa a lembrança, junto com suas intenções, passarem.

Daqui a mais uns quatro anos, você vai esbarrar com esse mesmo Maurício, grande Mauzão (um homem mirrado e bastante gentil). Não importa exatamente onde. Maurício terá se casado e divorciado, um filho já entrando na adolescência. Vocês vão ficar alegremente surpresos com o acaso, vão perguntar pelas novidades, só pra descobrirem o quanto estão atrasados na vida um do outro. Talvez marquem um almoço para a semana seguinte.

Então você descobre que seu antigo amigo também teve intenções de entrar em contato com você durante esses anos, mas infelizmente perdera as informações de seu contato e não sabia mais como encontrá-lo. Incrivelmente, nenhum dos dois adepto do Facebook.

Puxando assunto, você conta pra ele que finalmente deu uma chance ao One Piece, e que no fim das contas virou o seu mangá favorito, ele tinha razão. Mas Maurício não tem mais tempo de ler essas coisas; sua coleção inteira foi repassada ao filho. Como que pra se desculpar de tamanha traição, ele relembra os sábados de sol na praia; vocês os únicos a quererem jogar a bola com as mãos. Você confessa, meio encabulado, que já não tem mais paciência pra farofada que se tornou cada viagem à praia. Você agora nada todas as terças à noite numa piscina coberta de um clube bastante respeitado. Lugar limpo e animadamente frequentado por jovens solteiros em início de carreira (o que não é o seu caso nem a juventude nem o início de carreira, pensará consigo mesmo Maurício). Nada de crianças, graças; mas essa parte você omite no discurso, pra evitar conflito.

A natação é um bom exercício para seus joelhos já estragados por uma juventude ativa. Maurício ri, fazendo alguma piada sobre a idade já avançada de vocês, mas você não gosta muito da referência e responde apenas com um sorriso amarelo, pelo bem da antiga amizade. Está aí a deixa pra você estar “atrasadíssimo pra uma reunião”. Mas a gente se fala depois, “vamos marcar mesmo, hein?”!

Tchau, até mais! Muito bom te ver, cara!

Nesse curto reencontro, ou talvez até naquele almoço que vocês talvez consigam de fato realizar, vocês vão planejar muitas outras dessas reuniões casuais “dessa vez sem ser acidental!”, vocês riem. Planejam almoços, uma reunião com “o resto do pessoal”, quem sabe mesmo uma viagem curta de fim de semana.

Você volta pra casa com a certeza de que novos encontros jamais acontecerão. Pelo menos não os planejados. Não é que vocês não se gostem, ou não valorizem as lembranças de um outro tempo; a verdade é que você e Maurício já não têm mais tanto em comum.

Pra quê, então, essa ânsia de manter vivo, vegetativo, um passado ansioso pra se ver livre de existir? O medo de ter perdido tempo faz com que você, e o Maurício também, se esforcem pra guardar uma memória feliz de um passado que, no fim das contas, possivelmente nem foi tão próximo ao paraíso assim enquanto existia em realidade. Os dias de trabalho eram entediantes durante a maior parte do tempo, e em alguns sábados você queria simplesmente sentar de frente pra televisão e não assistir nada. A mecânica rotina, inconsciente, faz com que você, e o Maurício também, deixem de olhar pras outras oportunidades que se mostram bem diante de vocês. A mudança de perspectiva obriga a evidência desses novos caminhos como possibilidades, independentemente dos valores dualistas de bem-e-mal que foram forçados goela abaixo durante toda a sua vida. E a de Maurício também.

esperando por ela

Estou há dezessete minutos esperando por ela. É sempre assim. E apesar disso, eu sempre deixo de prever o previsível como se fosse uma acidental primeira vez. Esse restaurante fede ainda, não sei a quê; um cheiro gordo, velho, abafado. Mas tem umas ótimas pastas, e é especial para a nossa história, de toda forma. Enfim, acho que é.

Era, infelizmente, talvez, o único estabelecimento aberto naquele já início de madrugada, quando chovia e nós corremos em direção àquelas portas abertas, as únicas por ali, mais pra fugir de se molhar que em busca de refeição. E hoje eu me pergunto que tanto mau faria termos nos ensopado até chegar em casa, há cinco minutos de caminhada dali.

Tomamos um vinho barato que estava gostoso e dividimos uma sobremesa qualquer. E rimos muito. Naquele dia nós rimos muito. Lembro de tudo em câmera lenta. Não sei se porque essa chuva pesada nos lembra sempre as cenas mais poéticas do cinema (que permanece nosso maior interesse em comum), mas parece que nossa vida, naquele dia, foi uma bela de uma cena ápice de um romance bastante brega. O melhor tipo de romance que há, na minha opinião. Não na dela.

Estou há quarenta e oito minutos esperando por ela. No fim das contas, voltamos sempre aqui por puro hábito, muito mais que por interesse no lugar. É perto, está quase sempre aberto, serve refeições aconchegantes como bons pratos feitos por boas mães e avós. Tentei cozinhar durante uma fase da minha vida, mas nunca peguei gosto pela coisa, e nem ela pelo meu tempero. Talvez porque nunca tive muito tino pra ser mãe, menos ainda avó.

Estou há três dias esperando por ela. Estou nostálgica como se o nosso relacionamento já tivesse chegado ao fim. Às vezes eu preferiria que sim, só porque soa uma história mais relevante que a nossa alegria simplória do dia a dia. Vou buscá-la no aeroporto quando ela me disser exatamente o horário de sua chegada. Talvez ela chegue de trem, também não sei mais, porque ela muda de planos como quem muda de roupa. E, nossa, quanta roupa! Durante sua ausência pude limpar a casa e jogar fora as quinquilharias das quais ela tem medo de se desfazer mas que, certeza, nem vai se lembrar se não as vir.

Vamos jantar no restaurante aqui perto mesmo, porque ela vai chegar esgotada, mais por ter tido de lidar com tanta gente delicada por tantos dias seguidos que pelo trajeto em si. Vamos conversar muito, porque nosso papo sempre flui muito bem para qualquer assunto que apareça, e tomar aquele mesmo vinho de sempre e nos atualizar com os últimos acontecimentos. Já sei de antemão que ela vai ficar uma fera quando eu contar que fui ao cinema ver O Soldado sozinha. Depois vai rir e dizer que também foi obrigada a assistir, mais pra fugir das pessoas que pra aproveitar a sessão, porque aquele segundo dia fora realmente insuportável e ela precisava relaxar sozinha. E eu vou rir porque, conhecendo-a, já sabia. Não, o fim ainda não chegou.

Estou há nove meses esperando por ela. Ela não sabe de nada ainda. Eu, menos. Nunca achei que tivesse tino pra ser mãe. Mas de resto, tudo já está em ordem. O berço é de segunda mãe… mão, mas está em ótimo estado. As roupas são de todas as cores, porque filha minha não merece sofrer desde o nascimento o peso avassalador da cor rosa na vida de uma mulher. Ou de qualquer outra, for that matter. Estou no restaurante mais próximo de casa, porque estou com o sexto-sentido de que ela não tarda a chegar, portanto já não me afasto muito de casa, onde há uma semana está pronta a nossa mala. Em breve minha vida será outra, que nasce com ela. É um começo promissor.

Estou há doze anos esperando por ela, mesmo sabendo que não volta. Sou bastante prática pra não perder tempo com esperança ilusória; mas não o suficiente pra não desejar que tudo fosse diferente. Estávamos no nosso restaurante preferido – o que não indica por nada que fosse o melhor das redondezas (de nenhuma redondeza); na verdade era bastante simplório e cheio de defeitos, mas era o nosso – quando aconteceu. Estávamos no nosso restaurante preferido quando aconteceu. Aconteceu. Ela sempre foi muito saudável, então eu sofri uma verdadeira surpresa. Péssima surpresa, sofrida. Surpresa pra mim, pelo menos. Já no hospital, ela tentava me acalmar dizendo que estava tudo bem, que ela já estava bastante planejada pra tudo isso. Eu, deixada no escuro, sentia raiva, dessas raivas sem direção, que culpam o que quer que apareça pela frente, mais pela doença em si que por ter sido deixada na ignorância. Ela totalmente conformada e, eu diria, até satisfeita, o que aumentava a minha raiva.

Nós frequentávamos esse restaurante desde que ela perdera o ânimo com a cozinha, alguns poucos anos antes. Já era velha, preferia ser servida afinal, só pra variar. O lugar tinha um cheiro esquisito, inidentificável; ares abafados. Mas estava quase sempre aberto e servia refeições aconchegantes como bons pratos feitos por boas mães e avós. Como ela. Como os bons pratos que ela cozinhara pra mim a vida toda. Foi esse o último dia. Nosso último dia. O fim chegara, afinal.

Estou a vida toda esperando por ela. E tudo bem; é um pouco do que me faz viva.

feliz ano novo dois

Uma explosão. O barulho muito alto, e ele estava bem ali ao lado. Era ano novo de novo, e sua família nunca deu importância que ele fosse muito mais sensível ao som do que os outros. Porque nasceu assim, simplesmente. Ficou surdo do ouvido esquerdo quando alguém na família resolveu soltar fogos no quintal, poucos anos antes. Perdeu aos poucos a audição direita também, até ficar completamente surdo ao longo dos anos seguintes.

Estar surdo era desconfortável. As coisas se mexiam num silêncio absurdo. Ninguém tinha mais tanta paciência. Ele quase desejou ser surdo de nascimento, assim já seria profissional na linguagem dos sinais e já teria desenvolvido alguns superpoderes com os outros sentidos. Conforto sempre foi a sua prioridade. O melhor lugar da casa era sua cama, em frente da qual havia uma televisão. Uma TV sem cor, mas tudo bem, porque ele só gostava era da dinâmica das imagens.

Aos poucos ele foi percebendo a diferença de distância das pessoas em relação a si mesmo. Uma coisa de energia, talvez. Aos poucos ele pôde saber com mais agilidade quem se aproximava, e outros truques também. Mas ficara mais antissocial. Logo ele, que sempre fizera questão de receber todas as visitas e participar de todos os encontros, sempre muito participativo e animado. Agora se sentia um velho cheio de falhas. Assim ele pensava sobre os velhos. Ele ainda tão jovem.

Deitado, ele observava as bocas das pessoas. Os risos doíam mais. Eram ainda mais silenciosos. Eram como segredos que só ele não podia saber. Antigamente, era gostoso reconhecer as vozes das pessoas: ele não errava nunca. Pelo som dos passos, ele sabia sempre quem estava prestes a chegar.

Às vezes sentia-se um pouco abandonado pela família. Daí alguém dava uma atenção rápida pra ele e ele amava o mundo de novo. Às vezes sabia receber um carinho especial de alguém por dó de sua condição. De qualquer forma, nunca deixou de balançar o rabo pra ninguém. Os afagos valiam mais do que qualquer barulho, e os próximos anos novos ele poderia passar dormindo tranquilamente na sua gorda almofada da sala, com vista pra televisão.

rascunho D. ou: tristeza pelo mundo

Que partes da minha vida material eu posso viver sem?

“O que é isso que está acontecendo com o mundo? Estamos virando bichos selvagens? Ou nunca deixamos de ser? Até onde vai a intolerância, a indiferença, a completa carência de empatia? Conseguiremos alcançar a paz mundial algum dia? O que é a paz mundial? O bem coletivo permite a existência de satisfação individual?”

Assim podemos sempre começar a escrever qualquer novo artigo, de forma bastante vaga e batida, levando a violência o mais distante de nós que pudermos. Com muitos questionamentos e nenhuma resposta. Porque todo mundo quer a paz mundial, mas ninguém vai fazer nada enquanto a guerra não chegar dentro de casa. Queremos justiça, a não ser que a vantagem seja nossa.

Esses dias eu tenho estado bastante triste com o clima apático na minha casa. Resolvi largar o medo, sempre acompanhado de uma enorme preguiça, e apontar algumas direções de convivência familiar com as quais eu não estou satisfeita. Tirei o elemento “família” um pouco do comodismo, e também eu mesma, e agora ficar em casa tornou-se desconfortável de novo, tantas são as pequenas adversidades que se acumulam embaixo do tapete e sempre voltam à tona. Isso tudo acontece provavelmente porque eu tenho tempo livre demais e passo quase todo o meu dia trabalhando (ok, às vezes só enrolando) caseiramente.

Mas em casa eu tenho segurança. pode até ser falsa, mas me conforta. essa sexta-feira, que aconteceu de ser 13 mas tanto faz, foi um péssimo dia na minha vida. Muito bom para diários e reflexões e talvez até poemas muito sofridos, entretanto. Mas eu não escrevo poesia. Foi um dia essencialmente desconfortável. Chato, difícil, mas Oh!, como é complicada a minha vidinha fácil, não é? Não estou reclamando, mas todo mundo tem o direito de ficar confuso.

No fim de semana eu recebi a notícia, por uma amiga, de que um amigo muito querido que temos em comum foi assaltado na madrugada dessa mesma dolorosa sexta-feira. A situação se agravou e ele acabou gravemente machucado e levado pro hospital, onde precisou passar por uma cirurgia e perdeu bastante sangue.

Eu tenho estado muito distante dos meus amigos. Distância física mesmo, porque de resto sempre penso neles e os vejo ainda como pessoas intimamente próximas. Mas de que serve tanto pensamento senão pra eu fingir que tudo continua igual, não é? Não tenho encontrado meus amigos simplesmente porque tenho me preocupado bastante com as minhas próprias crises que, sendo fundamentadas ou não, são minhas e terão minha atenção sim, muito obrigada.

Acompanho a vida deles de muito perto, porque vivo no mesmo mundo que você, no qual somos plateia virtual um do outro em infinitos links pessoais online. É assim que eu tenho matado saudades, porque não tenho sido mesmo uma boa amiga e não tenho reservado nada do meu tempo a essas pessoas que eu insisto em dizer tão queridas. A família que a gente escolhe, dizem. Dizem?

Foi um tempo sozinha que eu ainda preciso, o que aconteceu sem planejamento meu e eles aceitaram de forma natural, mantendo-se ainda assim disponíveis a mim, como acontece com amigos de verdade.

Obviamente eu também sempre estou encontrável por ligações e mensagens para os momentos de real necessidade, e foi como aconteceu no fim de semana. Não queria que o contato precisasse se dar por um motivo nem de perto parecido com esse. Mas “apesar dos pesares”, muitos sentimentos foram despertados com essa notícia telefônica. Muitas reflexões sobre a minha própria vida, a minha família, o meu futuro e o futuro dos meus amigos. Que eu desejo ser longo e sempre de alguma forma próximo a mim.

Não sei qual é o meu ponto num escrito como esse. estou claramente confusa e triste. Parece que apareceu uma razão verdadeira para a minha tristeza de menina mimada. Visitei meu amigo, agora estável, e ele até arriscou um sorriso cansado. Tudo vai ficar bem no corpo dele, e do psicológico cuidaremos todos juntos, aos poucos.

Eu até tentaria fazer um texto político contra a violência na cidade, no país, no coração das pessoas. Aparentemente é muito mais fácil falar dos erros no mundo que dos acontecimentos do nosso mundo pessoal. Mas meu foco não são os bandidos, os motivos, os problemas nem as soluções. Porque eu sou uma menina de diários e sentimentos pequenos, de detalhes e de um egocentrismo desmesurado. Acho que o mundo tem lugar pro meu ângulo de visão também.

É uma merda existir violência e intolerância, mas no fim das contas a diferença pode às vezes ser mesmo chata de lidar. Eu mesma queria que todo mundo respeitasse o espaço um do outro, como eu faço. Queria consertar o mundo do meu jeito, mas isso só serviria pra ficar mais óbvia a enorme quantidade de erros que eu penso por segundo. Como você também.

Às vezes fica muito enfadonho sermos peças distintas de uma verdade só. porque assim nunca chegaremos até ela, a não ser quando todo mundo junto resolver se encaixar. Adivinha quando?

Tudo de errado é uma merda, mas a merda mesmo é quando o errado é óbvio e invade o nosso mundo cômodo. Pode ser a vida difícil que for, uma mudança surpresa sempre sacode o chão, equilíbrio se vai e buf, mais uma queda. Não sei se buf é uma onomatopeia oficialmente válida. Eu queria que não existisse violência, mas especialmente, que ela não chegasse perto de mim. Não me julgue, eu estou tão preocupada com o meu próprio conforto que você com o seu. E ninguém ‘tá errado nisso.

Não sei terminar de escrever, como também não soube começar nem conectar o que eu sinto. Eu sinto muito.

sexta-feira 13, de setembro

Decidi ir embora da casa dos meus pais. Claro que é mentira, mas mantendo esse pensamento, resolvi rever minha vida material e fantasiar um pouco. Quer dizer, sobre meus pertences e minhas possibilidades. Nada que seja realmente meu, mas presente é presente. Então, pensando como meu, quero reorganizar o que eu tenho nesse mundo-quarto. E assim abrir caminho pra rever minha vida inteira. E começar agir. Agir significando fazer o que eu decidir… e decidir é a parte difícil.

Pensei em ir embora pra casa dos meus avós lá na esquina do Brasil. Curtir a velhice da minha gatinha, aprender algo válido com eles. Mudar de ares, principalmente. Descobrir quais tantas outras possibilidades são essas que eu quero achar. Passagem de ida. Mas isso seria mais uma fuga, como todas as anteriores, que aliviam mas nunca resolvem.

Meu único real laço aqui é o meu namorado, que está por enquanto na carreira de estudante e já fez algumas das escolhas dele. Nem todas me apetecem, então eu acho que enquanto ele termina mais um curso eu posso mudar de ares e me descobrir na vida como uma pessoa inteira e importante. Independente e feliz. Não tenho certeza quanto a isso. Acho muito maior a chance de eu amarelar e continuar do jeito que sempre foi. Mas posso deixar o pessimismo de lado um pouquinho e sonhar, que não me custa nada que não um pouco da minha já escassa sanidade mental.

Hoje também decidi que vou me consultar com um psiquiatra e descobrir que nome dar às minhas frescuras emocionais, dramas e chiliques. A única coisa que eu quero é confirmar que o que eu tenho é só manha ou se tem alguma nomenclatura clínica ou comportamental e de repente um remedinho que possa me ajudar. Me ajustar. Também vou aos outros médicos que eu adiei, fazer meu exame de sangue, doar sangue e depois emagrecer de novo. Fazer muitos exercícios e viver da minha imagem bem como das minhas palavras. Viver como modelo de vida, como inspiração, como uma autoajuda ambulante pras pessoas que precisam de uma força. Essa é a minha vocação. E claro, aquela coisa de consultora em organização também parece interessante demais. Não faço a menor ideia de como se começa um trabalho desses. Nenhum deles. Mas algum passo eu posso dar, mesmo errado. Quanto mais passos errados eu der, mais certo de acertar eu estarei. Gosto de pensar assim e acho que faz algum sentido. Acho que vou recomeçar um diário em papel. Tenho vários cadernos em branco, que são tão lindos que eu tenho dó de usar. Talvez seja um bom momento.

Aliás, quando penso em viver só com uma Mala Vermelha, minha primeira preocupação é onde colocar tantos diários antigos. Já aprendi que esse é o tipo de coisa que não se joga fora. Já joguei tantos dos meus jovens escritos fora e me arrependo de cada um deles. Penso em vários projetos legais que posso levar adiante. Eu tenho muitas possibilidades, já que não preciso trabalhar oficialmente e fazer sacrifícios pra viver. É melhor que não fazer nada e assim eu vou estar aprendendo alguma coisa. Fazer filmes, artigos, fotos e aprender sobre eles, aprender sobre trabalho, sobre mim mesma, sei lá, mas algum aprendizado sempre se tira. Eu realmente espero que sempre se tire algum aprendizado de qualquer experiência, porque eu sempre sofro muito com os acontecimentos. E, não sei, espero que valha alguma coisa. Claro que eu pretendo tomar uma atitude quanto a isso, mas o meu passado já aconteceu e eu não posso mudá-lo e eu gostaria que todos os meus erros não fossem em vão. Porque cometi muitos deles.

sobre o resto do mundo

Qual a sua causa? Pelo que você vive? Minorias são a maioria no mundo, as pequenas causas são essenciais aos pequenos envolvidos. E existem causas demais. Qual eu vou escolher? A causa dos artistas ou dos gatos abandonados? E se eu escolho os gatos, o que será dos cães? Como farão os animais silvestres traficados se não houver alguém que lute pelos seus direitos? Direitos esses que a maioria não acha válidos, porque são “só bichos”.

E como alguém pode se preocupar com os animais tendo tanta criancinha passando fome? Tão ingênuas, puras, indefesas. As crianças são o futuro. Os idosos, não. Os idosos já tiveram o seu tempo e agora não passam de peso morto na sociedade. Só que não. Quem vai se levantar pelos velhinhos, às vezes agredidos verbal e fisicamente, sem mais força pra se defender por si mesmos. Velhinhos esses que, em sua maioria, passaram parte da vida criando um jovem pra tomar conta do mundo.

E as causas pelo mundo? Pela ciência e pela paz, pelas mães solteiras, pelos homossexuais; tantas pessoas sofrem violências em tanta forma diferente e acabam caladas à força. E as causas pelos doentes; eles não podem lutar sozinhos enquanto presos numa cama. Maca.

Eu hoje em dia vivo por uma causa muito nobre, simples, mas às vezes super difícil: a minha própria. Entretanto, assistindo a um desenho animado muito bobo, acabei por ter pensamentos sérios. Sobre o resto do mundo. Sei que não dá pra abraçar todas as causas só com os meus braços. Nem com a minha influência. Nem com dinheiro. Acho que se é pra ajudar, é bom que ajudemos até o problema não mais existir. E aí sim passar pro próximo desafio. Quer dizer erradicar uma doença no mundo? Eu acho que é muito mais simples, em cada passo; cada pessoa. Todos os problemas são uma questão de mentalidade. O que os faz na verdade uma missão mais descomplicada, mas às vezes dá preguiça de fazer direito: não entregue o peixe, ensine a pescar. Essas coisas.

Um bicho com um lar de cada vez. Castrado, saudável, amado. Um indivíduo de cada vez, estudado, saudável, com conhecimento suficiente pra lutar com os próprios braços e ser ele mesmo mais uma mente consciente pra ele mesmo escolher as suas causas. Assim se espalha a consciência, o respeito a qualquer próximo que esteja próximo da próxima mente indefesa precisando de ajuda. Todo mundo que não está feliz quer ajuda. Alguns não sabem aceitá-la. Algumas pessoas têm conceitos diferentes do que é felicidade, porque desejam demais. Aprendi que a felicidade está na ausência do desejo. No desprendimento de uma mente liberta.

Quer dizer, cada um por si encontrando harmonia e equilíbrio e o mundo está a salvo. Não é todo mundo que precisa ter um bicho de estimação. Mas castrar um deles é um problema resolvido a longo prazo. Toda família tem um patriarca, uma matriarca. Eles não vão viver pra sempre, então não é nada demais cuidá-los com carinho e com isso aproveitar o egoísmo saudável que todos temos e tirar deles conhecimento, seja do tipo popular ou acadêmico: tudo é conhecimento de vida. Eles erraram e podem evitar que erremos igual.

Daí existem problemas de uma sociedade inteira. Governos burros se resolvem pelo povo. Mas o povo é uma massa e a massa é mesmo burra, não interessa o grau de inteligência individual. É entretanto poderosa quando liderada por uma mente brilhante, e pode virar o jogo. Pouca gente muito concentrada resolve o problema de um povo todo.

O poder da organização começa no simples. A organização física juntamente com as mentes livres formam o poder de um mundo saudável. Equilíbrio individual conjunto à harmonia universal. Não é lindo?

Cada um faz a sua parte, porque de fato tem gosto pra tudo. Não precisamos todos ser médicos pra resolver as doenças do mundo. Até porque resolver todas as doenças do mundo não resolve a fome nem a burrice, não resolve a injustiça humana. Não precisamos todos aderir a todas as causas do mundo, mas precisamos de pelo menos uma. Todas aquelas que conseguirmos abraçar, porque é meio que uma razão pra se estar aqui. E isso definitivamente vai trazer alguma sensaçãozinha, mesmo mínima, que se possa apelidar felicidade.

louise

Eu sinto um pouco de raiva, sim. Não é raiva de nada, nem de ninguém em específico. É só raiva, sentimento intransitivo. Pode? Mais um trabalho meu não deu certo. Não sei bem quanto vai durar essa minha transição de estudante a cidadã contribuinte, mas o fato de estar demorando tão mais que com meus colegas de idade tem se tornado uma preocupação crescente pra mim. Talvez seja até esse mesmo o problema: eu tenho tempo e conforto demais pra me preocupar enquanto outras pessoas simplesmente têm de fazer. Fazer o quê, qualquer coisa, ué! Alguma coisa.

Não sei se é a sensação de ser útil ou se é dinheiro, o que eu quero. Sei que tenho 25 anos e escrevo melhor que muito PhD ou muito velhote por aí. Muito cabelo branco, muita pose e roupas ajustadas demais a uma postura que não passa de fachada. As pessoas não são competentes. E no entanto ‘tá todo mundo fazendo alguma coisa. Na maior incompetência. Eu não tenho formação de nada, porque largo tudo pela metade, mas posso mais que mais da metade. Das pessoas que eu conheço. E no entanto não faço nada. Não fiz nada. Até hoje eu não consigo pensar em nada que eu tenha realizado pra fazer o mundo melhor. Eu faço tudo melhor pra mim, no meu quarto. Só.

E agora eu penso tanto em querer que alguém me leia, que meus talentos literários se vão embora também. É muito desejo dentro de uma pessoa tão pequena. E quando eu digo pequena, quero dizer insignificante. Um dia terei um livro pronto pra se tornar best-seller e eu não precisarei nunca mais trabalhar. Eu poderia ser útil em infinitas posições na sociedade, desempenhando vários papéis e… mas que brega “desempenhar papéis”! Quem no mundo almeja desempenhar papéis? Como o mundo continua girando se no fim das contas as pessoas não estão fazendo absolutamente nada por ele?! Cumprir carga-horária.

Não deu certo o trabalho da revisão. O cara duvidou de mim porque não tenho diploma. Mas deu errado mesmo porque eu desejei demais. Porque estava fácil demais, porque eu já estava acomodada demais em menos de uma semana. Eu sei lá porque não deu certo. Sei que esse tipo de tristeza, ou raiva (ok, pode ser decepção), por que as pessoas passam durante qualquer derrota costuma motivá-las a encontrar novos caminhos. Eu só quero deitar no meu travesseiro confortável e fingir que nada aconteceu. Meu nome é Louise e ninguém precisa ter diploma da Sorbonne pra saber que a letra ó não se pronuncia. E no entanto sou chamada de L-o-u-i-s-e com muito mais frequência que o contrário. Tenho crises existenciais só por causa disso. Eu seria outra se meu nome se pronunciasse com um ó.

Gosto de me denominar freelancer. É outra palavra que ninguém precisa ter vivido em Nova York pra saber do que se trata. Mas a verdade é que sou desempregada, porque, muito além disso, sou desprofissionada. Sou tudo o que desejarem de mim, porque sou sagaz e dedicada. Sou do tipo perfeccionista. Mas ninguém quer nada de mim sem um reconhecimento formal. Quem se importa, eu só quero fazer o mundo girar. E o mundo não precisa de mim pra isso e, nossa, como dói.

Eu ocupo um quarto na casa dos meus pais. Um quarto decorado por mim mesma, um conforto raro no mundo, eu sei, uma vida fácil demais. Ninguém nunca me pediu nada em troca. Eu achei que depois dessa decepção eu iria enfiar a cara nos papéis e fazer deles arte. Definitivamente. Iria despejar toda a minha “dor”, iria responder às aflições de tantos jovens perdidos como eu. Iria falar ao coração… estou perdendo a paciência comigo mesma com essa pobreza nas palavras. Iria falar ao coração de leitores sem rostos. Tanto faz. Eu não quero fazer o que tenho de fazer. Quero ser útil, contanto que seja do meu jeito. É patético o quanto eu sou mimada. Não sei se minha alegria era pela segurança de sentir que agora eu tinha uma profissão, algo em que eu era boa, ou se por me sentir útil. Assim poderia demonstrar de verdade a gratidão de ter um canto nessa Terra. Eu sinto como se precisasse justificar a minha existência de alguma forma. E não é decorando meu quarto e nem juntando conhecimento pra mim mesma ou assistindo ao que os outros fazem enquanto pinto a unha e desejo roupas novas.

E revendo o que eu escrevo, eu só falo eu o tempo inteiro. Como todo artista. Que ano! Parece que nada deu certo e eu sinto que no fim das contas eu nem tentei nada pra valer. Nem a tristeza de um fracasso válido eu tenho o direito de sentir. Claro, por isso mesmo a sinto ainda mais forte. Que vida! Das últimas vezes em que tenho escrito, não sinto meu desabafo se terminar. Acho que também não sei mais escrever. Com isso acabo de quebrar um recorde pessoal. Fiz tudo tão impecavelmente bem durante toda a minha vida pra chegar na crise de meia-meia idade vendo-me um acessório quebrado. Tanto faz. Eu não sirvo pra nada e não tenho mais paciência de sofrer por isso. Acho que esgotei meus sofrimentos poéticos na adolescência. Você visita meu blog secreto pra saber do que eu estou falando. Claro, muito já foi apagado. Você entra escondido na minha casa (que é dos meus pais), vai até meu quarto (que não é de ninguém) e lê meus diários. Eles são muitos. Esgotei meu talento ali. Eu era uma criança-prodígio e escolhi não ser mais nada. Acabei.

jurado pra morrer de amor

Estrada Curitiba-Brasília, 21 novembro 2012, 17h22

Ouvindo Djavan eu tenho vontade de discordar de qualquer ideia de amor plácido. No meio da estrada minhas ideias ficam mais selvagens e cada vez mais dramáticas. Tenho fantasias de fugir e quase torcer pra dar tudo errado.

O amor nasceu do sofrimento, e não é legal separar uma família. O amor poético, claro. E quem sou eu pra definir os tipos de amor, certo?

Penso em correspondências humanas com assuntos industriais; concretos, inventados; moldados e moldáveis a cada nova carta.

Podemos falar de gramática. De como escrever melhor significa errar de propósito. Ousar com saúde lógica. Podemos ficcionar tudo e virar terceiras pessoas. Podemos fazer e desfazer tudo com quaisquer quantas palavras parecerem necessárias e usar o processo como produto final.

Podemos responder poesia com prática, tanto faz.

Pronto, tenho um projeto. Qual o próximo passo?

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    • Nota 1: Junto a esse rascunho eu tenho anotado o nome Ray Bradburry.
    • Nota 2: o fato de hoje ser no Brasil o “Dia dos Namorados” é uma trágica coincidência. Ai como eu adoro uma tragédia…
    • Nota 3: Djavan disse em uma entrevista que sua bela poesia é mero produto de sua profissão de compositor e não tem nada a ver com qualquer drama pessoal. Não tem nada de mero em uma boa ficção. Não que tenham sido essas as suas palavras; não foram. Eu jamais me lembraria, então invento. Inventar é a minha profissão também.

diário de bordo de uma estagiária num curta-metragem

O Contrato:

Duas semanas (de seis dias) para pré-produção, cinco dias de gravação e mais quatro dias de desprodução.

29 abril 2013, segunda

A Produtora Executiva marcou uma reunião comigo às 11h. Decidimos alguns horários, compromissos, datas e caché. R$200 por semana, duas semanas de escritório (em pré-produção) e uma semana de set. R$600 pra eu aprender uma infinidade de coisa. Fiquei mega empolgada, um pouco receosa quanto a algumas funções de um produtor, como ligações telefônicas e negociações delicadas. Às 15h eu já voltei pra produtora pra começar a trabalhar e já entrei mais ou menos no ritmo sem muita dificuldade. Me falta aprender os nomes das pessoas e entender todas as respectivas funções, pra distribuir a organização com mais clareza. Existem muitas funções numa produção de cinema, e eu não sei exatamente qual a minha, mas sob o nome de “Estagiária de Produção” eu fico tranquila por não ter nenhuma responsabilidade quanto ao produto final nas costas. Estou aqui simplesmente pra tirar peso das costas dos produtores de verdade e facilitar a vida deles. Acho que meu trabalho é mais de organização, que de qualquer forma é o que eu faço de melhor na vida. E aprender a função deles, claro. Orelha em pé o tempo inteiro.

A reunião duraria até às 18h30. Saímos 20h15. Fiquei chateada por perder o circo, mas queria dar 100% no primeiro dia, aprender o ritmo e entrar no clima. Saí satisfeita. Nao tive coragem de pedir carona com o pessoal daqui, que tava resolvendo o sumiço de uma chave. Esperei o Samuel sair do circo. Arrasei indo pro restaurante aqui perto esperando segura e confortável.

30 abril 2013, terça

Cheguei pontualmente como ontem. A produtora já estava aberta, fiquei uma meia hora esperando a Produtora Executiva, de quem sou meio que assistente pessoal. No início do dia já tive que ir atrás de entrar em contato com um Chiquinho responsável por um restaurante popular daqui de Brasília para pedir apoio de alimentação. Arrasei e consegui o que me pediram, através de várias outras ligações intermediárias. Mas meu maior sucesso do dia foi organizar uma reunião com todo o pessoal da Arte. 16h no brechó que está oferecendo figurinos pro filme. Organizei os contatos desse pessoal, incluindo operadora de celular. Isso é muito importante pra esse pessoal de produção, que é pendurado no telefone 24-7 e por isso tem sempre preferência por esses planos de falar gratuitamente pra outro número da mesma operadora. Produtores costumam ter pelo menos dois chips. Busquei contatos para conseguir um Landau ou Dodge Dart e consegui descobrir uma loja aqui perto que vende o tal “giroflex” de que precisamos. Tudo por telefone, porque meu trabalho é estar sempre presente na produtora pra quem precisar. Entrei em contato com eles, agora alguém precisa conseguir negociar o empréstimo (mais tarde descobri que possivelmente já exista um empréstimo pra isso, mas essa parte ninguém me avisou quando me pediram pra achar isso). Busquei contato dos bombeiros por conta de uma cena em que o ator “voa”. Não consegui. Mas estou satisfeita com todo o resto. Liguei pra infinitas pessoas durante o dia e cheguei na reunião das 16h pra conhecer parte da equipe. A reunião foi mérito meu e só não cheguei na hora porque a Produtora Executiva queria me segurar pra imprimir um arquivo. E eu hoje estava de carona.

1 maio 2013, quarta

Feriado. Cheguei às 10h, a  produtora estava fechada. A Produtora Executiva chegou poucos minutos depois. Estava previsto trabalharmos até umas 14h30. Essa foi nossa hora de almoço, da qual voltamos para mais trabalho. Fui embora às 18h30. A Produtora de Elenco apareceu e passou umas informações – que não tínhamos até então nada sobre ninguém do elenco. Temos um problema com o ator principal, então foram atrás de um plano B. A Produtora Executiva buscou alguém para a função de Maquinista. A equipe inteira do filme ainda não está definida, e por isso minha tarefa de reunir os contatos de todo mundo não foi tão simples quanto eu supunha. Ninguém me dá informações muito precisas sobre o que querem de mim, ‘tou treinando duro minha habilidade de adivinhação. Organizei finalmente os contatos de equipe, e só não cumpri essa tarefa mais rápido porque estava dependendo de outras pessoas, óbvio. (risos do futuro: esses contatos foram se modificando diariamente até o início das gravações) Só consegui os contatos no fim do dia, e eles me foram ditados pelos seus donos com muita pressa e pouca paciência. Depois organizei tudo e meu dia acabou praticamente com exclusividade a essa lista. Um grande alívio e sensação de missão cumprida ver a tabela finalmente completa (pelo menos com as informações de quem já está confirmado na equipe). Organizar essa parte de comunicação (operadoras e celulares) era a prioridade de ontem e também de hoje. Nada ainda foi feito além do que eu já fiz dentro das minhas possibilidades. Ser a última na lista de hierarquia me deixa de mãos atadas, apesar de eu sentir ser a mais objetiva no sentido de cumprir tarefas e cortar pendências da lista.

Passei uma hora do dia sem ter muito o que fazer, enquanto os outros brigavam discutiam e eu tentava focar a Produtora Executiva pra terminar uma, qualquer uma, atividade antes de passar pra outra. Resolvi me dedicar a ser assistente pessoal dela.

2 maio 2013, quinta

Cheguei na hora. A Produtora Executiva acabou não vindo à produtora e os contatos com ela foram feitos todos via email ou por intermédio dos outros produtores, com quem trabalhei mais diretamente o dia inteiro. Achei muito prático e útil essa comunicação eletrônica. Com a Produtora Executiva longe, meu serviço era fornecer um resumo dos acontecimentos ao final do dia. Então fiquei atenta ao que se conversava paralelamente no escritório e perguntando o tempo inteiro pros produtores o que tinha sido/estava sendo feito. Organizei as listas de pendências de cada um e organizei o que foi feito no fim do dia.

Só não fiz o relatório mais organizado porque fiquei atrasada pra minha aula à noite. Além disso, durante o dia fiquei responsável por recolher todos os documentos que entravam, arrumei as fotos das locações, os novos calendários e organizei tudo na parede, com a ajuda do Produtor, que arrumou a tabela gigante, e da Secretária lá do escritório, que imprimiu tudo. Quanto a isso, um dia tranquilo. Mas eu ainda termino o dia de trabalho completamente exausta.

3 maio 2013, sexta

Cheguei na hora e estou absurdamente nervosa porque aparentemente sobrou pra mim fazer dois contatos que exigem uma certa negociação: os bombeiros e os donos dos carros antigos. Estou morrendo de medo achando que posso jogar fora esses contatos por pura falta de tato na insistência para um apoio, por exemplo. Os serviços dos outros dias, de organização, observação dos outros e ligações como pra marcar reunião e pedir informação são difíceis mas muito mais tranquilos. Essa tarefa de hoje eu sinto que está um pouco fora da minha capacidade, mas vou ver o que faço.

Observação divertida: sempre chegamos na mesma ordem: eu, logo depois o Assistente de Produção, o Produtor e a Produtora Executiva (nessa ordem ou no máximo juntos). A ordem de hierarquia inversa: não é coincidência.

LIGUEI PARA OS BOMBEIROS! Consegui a informação precisa sobre onde conseguir o equipamento emprestado, com telefones, endereço e horários de funcionamento. Passei pro Assistente de Produção. E minha tarefa foi feita com louvor, beijos. Valeu meu dia.

Tomei algumas iniciativas, como mandar emails (que são agora a nossa comunicação-base) pro pessoal de todo tipo de produção do filme (de Elenco, de Arte, de Figurino) pra começar a pegar um pouco no pé: descobrir o que falta ser feito, o que foi conseguido. Assim consigo um relatório de resumo do dia mais preciso e global. Não é todo mundo que aparece aqui na produtora pra eu perguntar pessoalmente, então ontem senti que ficou esse vão. Hoje preenchi essa falha por iniciativa própria, acho que sou um sucesso.

Hoje eu me senti 100% dentro do esquema do filme, ‘tou no mesmo fluxo que o resto do pessoal.

4 maio 2013, sábado

O dia do maior estresse do mundo. Todo mundo pirou, todo mundo virou bicho, e a impressão que eu tenho é que algumas pessoas me vêem como sua secretária particular. Talvez eu seja? Recebi uma ligação da Produtora Executiva sobre talvez à tarde eu ter que sair na rua pra ver uns objetos pro filme. De jeito nenhum eu faço o trabalho de uma pessoa só porque não encontraram substitutos pra Figurinista e pra Produtora de Objeto, que resolveram ir embora no auge do processo.

Durante o dia ouvi gente dizendo que “tudo bem, qualquer coisa a Natália pode fazer isso também”. Ah, não posso. Mas nem que me paguem, que eu sei que não posso cumprir uma missão dessas sem experiência e em tão pouco tempo. Só temos uma semana.

Pessoal da Arte fez reunião e eu acompanhei tudo, como se fosse eu a responsável pelos objetos. Sei tudo o que precisam, o que é certo e errado, a palheta de cores e o clima de cada cenário. Mas de jeito nenhum serei eu a ir atrás disso.

 5 maio 2013, domingo

Meu dia de folga.

E mesmo assim não consegui tirar a cabeça do filme de jeito nenhum e fiquei nervosa o dia inteiro. Queria fugir e não ter que voltar a trabalhar pra segunda semana. Morro de medo do que pode sobrar pra mim. Cadê a equipe montada? Cadê os objetos de cena? Cadê o elenco?

Hoje tenho a certeza de que jamais trabalharia na produção de um filme. Qualquer setor, menos produção de nenhuma natureza. É loucura demais pra mim, imprevisto o tempo inteiro e aparentemente mais trabalho que as horas no dia podem oferecer.

Samuel (meu namorado lindo e hábil na arte da paciência) me levou pra passear e consegui me distrair um pouco. No fim do dia eu já estava mais tranquila e um pouco mais otimista pra próxima semana. ‘Tá acabando. O melhor desse trabalho é que tem prazo fixo pro meu compromisso acabar. Mais uma semana de escritório, uma semana de set e alguns poucos dias de desprodução (da qual nem tenho certeza se faço parte, no fim das contas, que me contrataram pra 3 semanas justas).

Desprodução é uma palavra horrível, certamente criada pelo métier do cinema, igual gente do direito faz. Termos de métier são muito bregas. (nota do futuro: termos de métier continuam bregas, mas usados no lugar certo são de extrema importância. No set, onde o tempo é curto e caro, as gírias deixam a comunicação mais precisa e objetiva, sem muita margem pra erro. Pra isso serve esse vocabulário. “3T!”, grita o diretor de fotografia. E em 3 segundos um produtor aparece com um caixote onde ele pode renivelar o solo como quiser, apoiar a câmera ou o seu próprio corpo e… tantas funções pode ter um 3-tabelas.)

6 maio 2013, segunda

Comecei o dia morrendo de dor de cabeça e estressada com esse sábado e domingo conturbados (domingo também, porque não descansei direito com medo dessa segunda semana). Mesmo assim o dia começou bem porque cheguei junto com a nova Produtora de Figurino e Objeto. Grande alívio pra mim! Repassei todas as informações de sábado pra ela e assim passei a bola. Não tenho mais nada a ver com isso. Imediatamente ela saiu pra rua resolver as pendências, gostei da iniciativa dela. Me senti mais tranquila.

Minha dor de cabeça passou depois do almoço, quando, bem alimentada, eu resolvi ficar tranquila e respirar direito. Acho que me faltava ar. Eu que já não respiro direito, quando fico estressada esqueço desse tipo de atividade acessória.

Hoje foi o dia da magia, no qual eu percebi que cada um tem uma função e essa coisa de hierarquia não existe em prática. Digo, a hierarquia é de funções e não de pessoas (nem todo mundo na equipe percebeu isso, though). Existe o trabalho individual de cada um com o intuito único de que um produto coletivo seja feito. Todo mundo só quer que o filme fique pronto e seja o melhor possível, e cada um porta peças desse quebra-cabeça pra que isso aconteça. Não tenho mais medo que briguem comigo. Sei exatamente o que é pra eu fazer, e não farei mais que isso, se estiver fora dos meus limites de capacidade, tempo e dinheiro. Meu trabalho ‘tá sendo bem feito, e quem brigar vai gastar saliva. Não tenho o menor peso na consciência e nem medo mais.

No fim das contas, percebendo isso, vejo que não tem ninguém pra brigar comigo. Hoje as pessoas voltaram ao normal e me tratam bem demais, me agradecendo e me assumindo como a “eficiência em pessoa”. Porque eu trabalho de verdade, e entrego o que me é pedido com rapidez e organização. Me sinto feliz por ser útil. A dor de cabeça se foi e meu dia correu bem mais fluido. ‘Tou tranquila, ‘tá tranquilo.

Consegui falar com o gerente da Indaiá, que ninguém conseguia achar, e descobrir que ele nunca recebeu a carta. Adiantei a vida dos produtores com isso. Hoje eu fiz a diferença, tomei iniciativas e me senti na equipe muito mais que uma adjacente.

No fim do dia houve uma reunião com quase todo mundo. E eu tive vontade de ficar. Mas a reunião estava se atrasando e eu tinha a minha hora pro treino no circo. Finquei o pé e simplesmente avisei que não poderia mais esperar. Não pedi autorização pra ninguém, mas deixei a Produtora Executiva previamente avisada. Mais uma tarefa bem cumprida. Ela, um amor sempre, disse que, claro, eu estava mesmo liberada e tudo bem.

Quando me tratam bem eu tenho muito mais vontade de trabalhar. Depois do treino no circo cheguei em casa pra ver os últimos emails e mandar o resumo do dia. Com muito prazer.

 7 maio 2013, terça

Durante a semana passada, minha função foi se moldando aos poucos. Hoje já tenho uma rotina clara. No fim do dia sempre mando um resumo do dia: fico sempre com a orelha em pé ouvindo as discussões sobre o que está acontecendo com quem vai pra rua resolver casos em aberto, senão, vou atrás do produtor de cada setor pedindo as últimas atualizações do que foi feito e do que ainda resta como pendência. Muita coisa agora é informada por email, o que já facilita a minha vida. Sou a central de informações, e graças a isso temos uma ideia muito clara do que falta fazer. As pessoas também já enxergam bem o que eu ‘tou aqui pra fazer, e automaticamente já me fazem os relatórios verbais pra eu ir anotando. Tenho todos os contatos e listas e planos e cartas e documentos, tudo junto e completo aqui comigo. Além disso, a missão de ir atrás de outras informações. Hoje vou ligar pra algumas pessoas e pegar os RGs restantes pra equipe inteira poder entrar no Condomínio que é locação pra um dos dias de filmagem. Hoje acabo isso.

8 maio 2013, quarta

É um saco depender de outras pessoas, que não respondem emails, que não atendem telefones. É um atraso de vida, e eu tenho que aprender a ter esses resultados um pouco fora do meu controle. Mas ‘tou aprendendo aos poucos a pressionar de leve as pessoas e pegar o que eu quero. Muito mais pela minha observação do trabalho dos Produtores que pelo meu próprio trabalho, eu vejo que uma tarefa aparentemente simples é sempre uma grande saga: as outras pessoas não têm o menor interesse (nem obrigação) em facilitar a sua vida.

Quase não consigo ir embora. Os dias ‘tão ficando muito cheios e mais responsabilidades estão caindo no meu colo. Ligações e pressionamentos na galera. Detesto isso.

 9 maio 2013, quinta

Comecei o dia mais cedo, às 9h30, esperando um táxi que nunca apareceu. Mas soube me virar e consegui manter a minha pontualidade intacta. Logo que cheguei saí pra papelaria, e foi um passeio tranquilo. Acho que eu ‘tou precisando sair um pouco desse ambiente escritório, com as mesmas tarefas e as mesmas caras e o estresse em ascensão. Meu passeio foi uma delícia e eu resolvi não ter pressa. Daí meu dia foi tranquilo. Eu nunca começo o dia louca pra levantar da cama e voltar pro escritório, mas aí me divirto escolhendo o que vestir (às vezes não me divirto tanto, mas hoje foi um dia bom), daí dou uma organizada nos papéis e entro no clima e minha única vontade é fazer o filme funcionar. Caminhando pro táxi, hoje eu me senti satisfeita. Uma respiração mais tranquila.

A Secretária não veio hoje, então meu trabalho além de organizar e fazer tabelas foi de fazer cartas e digitalizar documentos e fazer cópias e tudo mais. Aprendi logo e gostei. Achei que o dia todo seria tranquilo assim.

Então à tarde surgiram uns telefonemas mais difíceis pra eu fazer. Daí eu vou aprendendo. O Diretor foi legal e me deu umas dicas muito pertinentes de como tratar apoiadores numa ligação.

O dia foi divertido. O estresse está me alcançando, mas ‘tou sendo forte contra ele, mantendo-me a central Zen da equipe. Tentando manter um clima mais tranquilo à minha volta. Resolvi mesmo não assumir nenhum peso nas minhas próprias costas, mas faço meu trabalho de liberar a sobrecarga dos outros muito bem. Foi pra isso que vim, pra mais nada.

10 maio 2013, sexta

Duas coisas que detesto: carro e telefone. Sou a última na fila da humanidade com talento pra ser produtora. E meu interesse acompanha o perfil. Me descobri, no entanto, uma secretária modelo. Não só secretária de obeceder mecanicamente às ordens e imprimir e fazer tabelas – o que também tenho feito com eficácia -, mas também de observar, organizar o caos que se forma, lembrar e tomar iniciativas. Estou equilibrada com essa coisa de iniciativa, eu acho. Poderia fazer mais, mas a chance de eu fazer besteira sendo novata é grande, então sei que contribuo mais fazendo só o que é simples e o resto do pessoal deixou passar. Ser estagiária é esperar por direções e estar disponível, de qualquer forma.

Essa semana correu e semana que vem eu devo ficar o tempo inteiro com organizações internas. Nada de pegar carro correndo pra resolver problema na pressão. Pra mim é ótimo, que eu ganho essa experiência de estar no set (que como atriz eu já adoro), fazendo o que eu gosto mais e faço melhor.

11 maio 2013, sábado   12 maio 2013, domingo

FOLGA!

13 maio 2013, segunda

Último dia de escritório. Estou completamente de saco cheio, mal posso esperar pra mudar de rotina. Mesmo que digam que no set é muito pior. Mesmo que seja imprevisível. Já tenho meus limites bem delineados, e sei que ‘tou ganhando pouco demais pra alguém questionar a minha boa vontade.

Algumas impressões de set:

O que me parece é que no fim as funções se misturaram de vez. Acho que é a falta de um Platô. Todo mundo faz tudo, pra que o todo seja feito. Pode ser só impressão minha, ou pode mesmo ser que só eu esteja fazendo isso e acumulando tarefas enquanto ninguém percebe que eu não estou disponível. Acho pouco esperto. Da minha parte, no caso.

Que faz uma estagiária? Se for como eu, ingênua e louca pra aprender: tudo pra todo mundo.

No fim do processo eu aprendi a dizer vários nãos. “Não é comigo”. É o tipo de coisa que se aprende na prática: existe essa definição muito precisa de funções no cinema, e não é de graça. Cada função já é, sozinha, sobregarregada, e não dá pra tapar buraco pra ninguém enquanto se cumpre o seu trabalho com qualidade. É essencial que no set exista um Platô, que faça a conexão entre as várias equipes, e nada mais. É preciso saber a quem se direcionar quando precisar de alguma coisa. Gente me pedindo objeto de arte estava errada, porque eu já tinha várias outras funções acumuladas mesmo como Estagiária de Produção, como por exemplo cuidar pros carros não passarem na hora da filmagem, ou ser babá do cachorro da cena, ou receber ligação de gente cobrando dinheiro da Produtora Executiva. E eu aprendi a dizer não pra só assim eu conseguir cumprir qualquer tarefa direito.

Óbvio que durante a semana de set eu não escrevi nada, porque nem roupa limpa eu tive tempo de achar pra vestir. teve dia em que começamos às 5h30, teve dia que durou até 3h da manhã e com certeza teve dia que a gente passou longe das 12h de trabalho de uma diária.

Teve gente sendo mega grosseira comigo, teve muita gente me pedindo serviço que não tinha nada a ver com o que eu deveria fazer, e na maior parte eu tentei servir a todo mundo. No meio do processo faltou uma figurante e quando eu percebi, lá estava eu sendo maquiada pra interpretar a “Amiga 1″. Pelo menos garanti o meu caché. E foi divertidíssimo. E curioso: como as pessoas me trataram diferente nas duas cenas em que eu deixei de ser “estagiária-faz-tudo-pra-todo-mundo” pra virar *ATRIZ*. Juro, esse tipo de observação é hilário. Até o tom de voz das pessoas muda. Claro, também porque eu quebrei um galhão, que eles tavam sem atriz pra substituir a moça que furou.

Conheci pessoas maravilhosas, de quem quero seguir o exemplo e com quem eu certamente trabalharia. Convivi com pessoas cujo trabalho eu detestei e com quem jamais eu trabalharia num set de novo. Essas pessoas são um atraso de vida e de luz boa no set.

Nos poucos momentos de folga eu me aproximei mais da galera da elétrica e maquinária. Uns caras cheios de história, muita camaradagem e com a cabeça no lugar. É muito cheio de vaidade, esse meio do cinema, não se enganem. Mas algumas pessoas conseguem escapar disso e se divertir muito enquanto produzem um bom serviço.

Ah, claro, e nos dois últimos dias eu acabei passando pra Assistente de Arte. As pessoas aparentemente não têm o menor compromisso e saem do projeto assim, no meio. Ok, imprevistos e problemas pessoais acontecem. Mas aconteceram demais nessa produção, pro meu gosto. Problemas pessoais acontecem em qualquer meio profissional e eu não vejo nego dando desculpa pra desistir. Enfim, lá estava eu arrumando figurinos. Que sonho, esse que é o trabalho pra mim! Mexer com estética, com arte, com roupa, com decoração. Fiquei encantada e assim recuperei forças pra finalizar a produção.

Cinco dias pareceram trinta meses, eu já não aguentava mais. Mas passar a ser assistente da figurinista, com quem tive afinidade desde que ela apareceu, me deu novo gás e eu passei a trabalhar com muito mais boa vontade. Porque estava fazendo algo de que já gosto naturalmente, além de ter uma facilidade que em produção eu certamente não tenho.

Uma produção de cinema, mesmo um curta-metragem, que dura um mês (sem contar a pós-produção, que é outra área que me fascina), pode substituir uma escola de anos. Eu aprendi muito de produção: o que funciona, o que não. Aprendi a resolver os problemas sem perder tempo sofrendo por eles. Aprendi a fazer ligações e a lidar melhor com as pessoas. Aprendi a respeitar os meus limites sabendo ampliar minha zona de conforto. Aprendi a responder a injustiças e não engolir desrespeito. Aprendi de verdade todo o processo de um filme, que eu já tinha estudado na teoria. E, se tudo tiver dado certo, ensinei um pouco de organização e simpatia pra vida das pessoas que eu conheci.

“A esperança é o sonho do homem acordado”

(Aristóteles)