menos

Nesse modo automático que a rotina acaba desenvolvendo, a gente vai acumulando um bocado de coisa desnecessária na vida. Parece que a regra padrão atual é abusar do mais e do maior, então é esse o lugar seguro em que o nosso automático se acomoda. O mais ocupado é produtivo, o mais consumista é rico, o mais rápido é esperto. O abundante de hoje em dia ficou deformado.

Menos.

É hora de tomar consciência das nossas decisões diárias e revertê-las num aproveitamento mais inteligente da nossa vida. A cultura do menos traz de volta o frescor e a razão, e nos ajuda a eliminar esses excessos e redescobrir o equilíbrio perdido.

1. menos tralha.
Tralha é tudo aquilo que ocupa espaço (físico ou mental) sem oferecer funcionalidade. Tudo aquilo que está quebrado, estragado ou abandonado há pelo menos um ano esperando, em vão, uma atitude merece um novo destino. Quando um objeto é realmente útil e apreciado, a atitude necessária é tomada logo. Outro passo importante é se livrar de repetidos e obsoletos ou, ainda, daquilo que é mantido por pura obrigação. Procure as tralhas na cozinha, no escritório, nas prateleiras e, muito possivelmente, no fundo dos armários, e passe-as adiante, pra onde elas possam ser honestamente bem-vindas. A tralha de um é o tesouro do outro.

Ah, e tem o guarda-roupa. Esse tanto de roupa que você insiste que um dia vai magicamente cair bem e você vai finalmente usar (ou que você insiste e usa, mas nunca se sente bem nesses dias), só serve pra tornar difícil achar aquelas peças de que você realmente gosta. Essas peças, sendo a tralha que são, ficam constantemente te lembrando de que você não está no peso que queria ou que não tem um tipo específico de corpo ou que não tem coragem de fazer combinações tão ousadas quanto gostaria. Você se dando conta ou não, isso ‘tá sempre ocupando a sua cabeça. E não que sirva de motivação pra você fazer algo a respeito, né? É estresse puro e nada mais.

Esse apego impede que você refresque seu estilo e relaxe, se divertindo com as roupas que te fazem sentir confiante e confortável na sua vida real – e não na imaginária. Pra resolver esse excesso, existem os chamados capsule wardrobes, ou guarda-roupas cápsula. São projetos nos quais você seleciona uma pequena coleção sazonal entre as peças que tem e aprende muito sobre si mesmo no caminho, sem precisar se desfazer de nada definitivamente enquanto não estiver seguro. Existem vários formatos que você pode usar como guias. Ou pode criar as suas próprias “regras”.

2. menos consumo.
Saber selecionar o tipo de produto e serviço que entra na sua vida é um portal pra tranquilidade. Dê espaço apenas pra produtos de qualidade, adquiridos com consciência e com calma. Pra isso, fugir das tentações da publicidade e das vitrines – reais ou virtuais – ajuda bastante. Evitar que os objetos se acumulem na nossa vida é muito mais produtivo do que ter que lidar com as tralhas que eles viram depois.

3. menos compromisso.
Diga não a mais um novo projeto, a mais uma saída social enfadonha. Ser uma pessoa sempre “ocupada” não te faz uma pessoa melhor. Ter tempo livre não é pecado! Reserve horários de lazer e descanso como compromissos inadiáveis na sua agenda. Garanta passar um tempo sozinho, à toa. Priorize objetivos e pessoas, e mantenha um foco.

Menos compromisso também quer dizer selecionar bem os relacionamentos. Pode parecer prepotência, mas é totalmente saudável e necessário eliminar da sua vida as pessoas tóxicas, que te puxam pra trás. Não que sejam necessariamente más pessoas, mas em geral são relações que mutuamente já não acrescentam mais nada positivo. Normalmente, essa evolução é algo que se dá de forma natural, mas acontece de a gente se apegar a um relacionamento às vezes abusivo ou simplesmente entediante sem perceber – é o modo automático ativado. E isso com certeza é mais um peso desnecessário nas costas.

4. menos caloria vazia.
A atenção ao consumo (vide item 3) cabe como uma luva quando se fala em alimentação. Alimentos frescos, diversificados e o mais naturais possíveis dão ao corpo o combustível necessário pra seguir com a rotina (ou pra dar uma fugida dela de vez em quando) sem acumular excessos no seu organismo. E normalmente têm uma embalagem mais consciente. Aqueles de procedência local exigem menos transporte. Procure produtores locais e confiáveis, aprenda a cozinhar refeições simples, nas quais você controla os ingredientes e o sabor. Comer de forma funcional vai aumentar a sua energia, vai criar uma relação muito mais íntima (e amigável!) com a comida e ainda pode ser uma nova atividade divertida. Além de diminuir tempo e dinheiro com médicos e doenças.

O mais importante é começar substituindo os ultraprocessados (como açúcar, refrigerante, biscoitos industrializados e basicamente qualquer comida que vem embalada “pronta pra comer”) é algo que naturalmente já reequilibra o organismo, sem restrição, sem dieta, sem dúvida. Pra quem luta com sobrepeso ou falta de energia, as mudanças logo começam a aparecer. (Aí sim, depois de emagrecer é que é a hora de renovar o guarda-roupa, e não o contrário.)

5. menos virtual.
Reduza sua presença virtual. Descadastre-se dos e-mails de lojas e sites (o que também serve pra evitar as tentações do consumismo desenfreado) pra não perder tempo deletando lixo. Foque no conteúdo que você consome por prazer e interesse francos, ao invés de ficar perambulando horas pela Internet sem destino. A Internet não tem fim. Talvez tenha, mas não procure.

Pra organizar e priorizar sua presença online, escolha as redes sociais com as quais realmente se identifique e cancele todas as outras. Também existem vários bons programas que permitem reunir o conteúdo dos seus blogs e sites favoritos a seguir, e você só passa por eles no momento reservado a isso. O Feedly é um deles, ou também o Bloglovin’. O Pocket, por exemplo, é uma excelente ferramenta pra salvar os artigos que você quer ler quando tiver tempo. Escolha o seu canto preferido da Internet e ignore todo o resto. É como se você quisesse morar em todos os países do mundo ao mesmo tempo. É, não dá.

6. menos julgamento.
Não leve tudo o que os outros dizem tão a sério, menos ainda leve como pessoal. Também não se leve tão a sério. Na maioria das vezes, a maior parte do que as pessoas falam é bobagem dita sem pensar. Não compre briga. Nem consigo mesmo nem com o mundo. Os erros são comuns a todos nós, e ninguém erra honestamente de propósito. Abra mão da última palavra. Só um teimoso é capaz de identificar um outro. Ouça o que os outros dizem ao invés de ficar ensaiando na cabeça a resposta antes mesmo da pergunta.

Pratique aceitar as coisas como elas vierem, mesmo que pareçam fugir um pouco aos planos. Na grande maioria das vezes a gente não é capaz de enxergar todas as possibilidades disponíveis, então vamos tentar nos manter mais abertos ao diferente: ele pode ser ainda melhor do que qualquer outra opção que a gente pôde imaginar.

7. menos pressa.
Dê tempo pro raciocínio, pra reflexão. Essa é a melhor maneira de simplificar a comunicação com os outros, e evita muito mal entendido e dor de cabeça. Tome seu tempo pra tomar uma decisão, dar uma resposta ou fazer uma refeição. Pratique estar presente no momento presente, faça tudo com mais calma, sem tentar pular etapas.

Aprecie um ritual matinal, uma boa xícara de chá, uma conversa, uma leitura, a hora de se vestir, as pessoas mais importantes, as atividades que te aproximam cada vez mais dos seus objetivos. O melhor exercício pra calma e atenção ainda é a meditação.

Desacelere, vale a pena.

8. menos distração.
As categorias acima todas se resumem a isso: distração.

As distrações estão por toda parte: a caloria vazia você quer evitar, mas que está sempre na despensa fazendo tentação; a Internet e a televisão, sempre tomando mais tempo da gente do que seria são; pessoas que nos atrasam de seguir atrás dos nossos objetivos; compromissos que a gente não dá conta de cumprir com calma e qualidade; objetos e roupas de que não gostamos, tomando atenção e espaço de outros que poderiam nos facilitar a vida.

Calma.

Aproveite o momento presente, qualquer que seja ele, com tudo o que ele contém. Esteja presente. Tire proveito de todas as oportunidades, mesmo daquelas que a princípio pareçam desagradáveis ou que não tenham cara de ser o que você teria escolhido. O excesso de tarefas, especialmente as simultâneas, não é mais que uma distração daquilo que realmente importa, que são seus objetivos de vida, suas prioridades de cada momento.

Limitar as distrações no cotidiano é ganhar foco e reforçar os bons hábitos. Com isso, a liberdade também de ceder a um desvio ou outro de vez em quando sem consequências pra sua paz e saúde. Uma tarde de folga passeando sem rumo pela Internet, uma sobremesa caprichada em um jantar especial, nada disso é proibido, nada disso é prejudicial, quando são exceções, eventualidades. Proibir de vez a enorme quantidade de opções que existem, se privar eternamente de qualquer coisa que ainda se tenha vontade também é uma fonte de estresse. Calma. Um passo de cada vez.

* * *

Minha sugestão é que você comece a tentar praticar essas mudanças uma de cada vez, aos poucos, testando e vendo o que funciona melhor. Uma categoria de cada vez, um item de cada vez. Sem pressa. Aos poucos as mudanças aparecem, e você ganha motivação pra seguir em frente, com menos estresse, menos medo, menos peso na vida.

Toda mudança tem um período de adaptação, que costuma ser um pouco desconfortável. Quem disse que é necessário sofrer com o desconforto? E quem inventou essa regra de que devemos estar 100% do tempo confortáveis com tudo ao nosso redor? E a graça, cadê? Toda tarefa divertida tem sua partezinha chata, porém essencial. Todo sucesso passa por dificuldades primeiro. É o que faz valer a pena.

Boa jornada!

melhores leituras de 2015

minhas leituras em números:
❧ total: 47

❧ 11 nacionais vs. 36 estrangeiros
❧ línguas:

34 português
 12 inglês
 1 francês

29 homens vs. 18 mulheres
❧ cronologia:

 12 XXI
 26 XX
 6 XIX
 1 XVIII
 1 I
 1 A.C.

32 ficções vs. 14 realidades
❧ viveria sem: 9 (dos quais 4, podendo, escolheria meu tempo de volta)
❧ colecionando clássicos (14):

 the great gatsby (f. scott fitzgerald)
 cem anos de solidão (gabriel garcía márquez)
 lolita (vladimir nabokov)
 a metamorfose (franz kafka)
 a arte da guerra (sun tzu)
 the picture of dorian gray (oscar wilde)
 frankenstein (mary shelley)
 the strange case of dr. jekyll and mr. hyde (robert louis stevenson)
 pride and prejudice (jane austen)
 a revolução dos bichos (george orwell)
 o sol é para todos (harper lee)
 the bell jar (sylvia plath)
 the autobiography of benjamin franklin (benjamin franklin)
 o guia do mochileiro das galáxias (douglas adams)

 

os melhores

(em ordem de leitura)
nota: classifico minhas leituras por aproveitamento pessoal e não pela qualidade técnica e afins. são preferidas as leituras que mais se comunicaram comigo e me instigaram de alguma forma

1. da tranquilidade da alma – sêneca, século I

 

2. a moveable feast – ernest hemingway, 1964

 

3. sonhos de robô – isaac asimov, 1986

 

4. just kids – patti smith, 2010

Just Kids - Patti Smith
 

5. the great gatsby – f. scott fitzgerald, 1925

The Great Gatsby - F. Scott Fitzgerald
 

6. cem anos de solidão – gabriel garcía márquez, 1967

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
 

7. like water for chocolate – laura esquivel, 1989

Like Water for Chocolate - Laura Esquivel
 

8. a metamorfose – franz kafka, 1915

A Metamorfose - Kafka
 

9. o sol é para todos – harper lee, 1960

O Sol é Para Todos - Harper Lee
 

10. the bell jar – sylvia plath, 1963

The Bel Jar - Sylvia Plath

* * *

* * *

todas as leituras

(vide minha estante de leituras)

  1. da felicidade da alma (sêneca)
  2. o castelo de papel (mary del priore)
  3. clarissa (erico verissimo)
  4. a vida do livreiro a. j. fikry (gabrielle zevin)
  5. um gato de rua chamado bob (james bowen)
  6. o que toda mulher deve saber sobre a decoração do lar (neusa testa)
  7. a moveable feast (ernest hemingway)
  8. sonhos de robô (isaac asimov)
  9. french women don’t get fat (mireille guiliano)
  10. hamlet e o filho do padeiro (augusto boal)
  11. organize-se (donna smallin)
  12. contos fantásticos do século xix (italo calvino)
  13. cadê você bernardette (maria semple)
  14. just kids (patti smith)
  15. a insustentável leveza do ser (milan kundera)
  16. eugênia grandet (honoré balzac)
  17. the great gatsby (f. scott fitzgerald)
  18. inventário de segredos (socorro acioli)
  19. un lieu incertain (fred vargas)
  20. cem anos de solidão (gabriel garcía márquez)
  21. like water for chocolate (laura esquivel)
  22. o mistério da cidade-fantasma (marçal aquino)
  23. lolita (vladimir nabokov)
  24. a metamorfose (franz kafka)
  25. a arte da guerra (sun tzu)
  26. the picture of dorian gray (oscar wilde)
  27. o outro pé da sereia (mia couto)
  28. frankenstein (mary shelley)
  29. the strange case of dr. jekyll and mr. hyde (robert louis stevenson)
  30. pride and prejudice (jane austen)
  31. minha mãe não dorme enquanto eu não chegar (moacyr scliar)
  32. a revolução dos bichos (george orwell)
  33. dublinenses (james joyce)
  34. o exército de um homem só (moacyr scliar)
  35. o cinema de meus olhos (vinicius de moraes)
  36. tempo de semear (clara sebastianes)
  37. o sol é para todos (harper lee)
  38. laços de família (clarice lispector)
  39. the bell jar (sylvia plath)
  40. o sangue dos outros (simone de beauvoir)
  41. the autobiography of benjamin franklin (benjamin franklin)
  42. pastoral americana (philip roth)
  43. um diário russo (john steinbeck / robert capa)
  44. o guia do mochileiro das galáxias (douglas adams)
  45. search inside yourself (chade-meng tan)
  46. a festa de babette – e outras anedotas do destino (isak dinesen)
  47. o restaurante no fim do universo (douglas adams)

Esse ano eu li 47 livros. Por isso, só por isso, resolvi assumir o compromisso, a resolução, de ler 50 livros em 2016. Um desafio estimulante, mas sem pressão.

Para o caso de eu não estar falando sozinha: vamos conversar sobre resoluções literária e leituras em geral! Quais livros foram os mais especiais pra você em 2015?

um escritor

Eu escrevo desde sempre, mas raramente fui lida; nunca publicada. Porque a verdade é que eu não tenho o hábito de concluir nada. Não depois de encerrada a minha vida acadêmica, não.

O que é preciso para ser um escritor.

Pra ser escritor, basta se autoproclamar escritor.
Ou
É necessária uma troca financeira por esse produto escrito, pra que Escritor seja o nome de uma profissão.

Qualquer arquivo cheio das suas palavras é o produto de você ser escritor.
Ou
É necessário atingir leitores. Não apenas ser lido, mas que atinja o leitor. Um leitor apenas, basta.

Um escritor precisa escrever bem ou precisa escrever constantemente, ou precisa ser criativo, ou autêntico. Um escritor precisa ter um texto finalizado. Um escritor precisa. Um escritor precisa escrever.

Um escritor é uma pessoa que não consegue se expressar pela palavra falada, ou pela dança, ou pelo desenho ou pelo artesanato ou pela música. Um escritor é uma pessoa artista, e um escritor é um escritor porque ele não tem outra saída.

O escritor é aquele que tem seu nome estampado na capa, e está disponível nas prateleiras de grandes livrarias. Ou pequenas.
Ou
Um escritor não é necessariamente o nome que vem na capa, porque o escritor pode ser um elemento fantasma de um produto. O escritor que escreveu anonimamente é escritor da mesma forma. Pra ser escritor, não é necessário anunciar pra todos os cantos que se é escritor. Mas é necessário ser lido, essa troca é imprescindível.

A chamada tríade essencial do teatro dramático consiste em texto, ator e público. Pra ampliar um pouco o conceito, elimina-se o “dramático” e diz-se que o teatro-simplesmente consiste, em essência, em: ator, espectador (que basta ser um) e uma ação (que pode ser  ou vir de um texto, preparado ou improvisado, pode ser por movimentos e pode até ser a ausência de tudo isso). São portanto dispensáveis: diretor, dramaturgo, cenário, figurino, etc., etc., etc. elementos. Grotowski (que é um cara importante no meio teatral) atingiu pontos extremos em seu experimento com o chamado Teatro Pobre. Mas nem no mais pobre dos teatros se conseguiu eliminar um receptor.

Uma árvore que cai numa floresta, quando não há quem a ouça, ela faz barulho ou não. A mesma resposta vale igualmente para o ofício do escritor.

Todo artista precisa de um público e de aplausos e de vaias.
A indiferença desvalida a arte do artista.

Tudo acima foi escrito com pontos finais, para que o texto não seja uma sucessão de dúvidas sem respostas, e porque toda pergunta é também uma resposta válida. É preciso escolher uma delas.

?

diário de leitura: dezembro 2015

No último mês do ano eu acabei naturalmente dando aquela decisiva aceleradinha de fim de corrida. Tentei alcançar 50 leituras no ano, mas acabei finalizando em 47. Tudo bem, bom que sobra espaço pra aumentar o número ano que vem. Sem pressão. Mas é meu descompromissado objetivo pra 2016: 50 livros. Mas sem pressão. De toda forma, valeu pra dar um pique final na conclusão do ano.

Um Diário Russo - John Steinbeck e Robert CapaSó em dezembro foi que eu finalmente concluí meu Desafio Livrada 2015, terminando Um Diário Russo, dia 6, pra categoria “livro-reportagem”.

John Steinbeck e Robert Capa viajaram juntos pra Rússia no período da Guerra Fria, final dos anos 40, pra voltar com um relato honesto sobre a vida dos cidadãos locais. Steinbeck deixa muito claro na introdução do livro que eles não tinham nenhuma intenção de desenvolver um relato político e aprofundado da observação que eles pudessem fazer durante essa viagem, e eu concordo com ele que o resultado é mesmo um tanto superficial.

A escrita do Steinbeck é muito bem-humorada e nos dá a ideia de um diário de bordo pessoal, um simples e despretensioso diário de viagem. O que deu um toque mais interessante ao relato; só fiquei na dúvida se cumpri minha meta para o desafio literário, porque no final fiquei meio na dúvida se esse livro realmente é um livro-reportagem ou se eu estava enganada. Não sou muito entendida dessas nomenclaturas.

Achei que as fotos do Capa ficaram muito em segundo plano. Quer dizer, ele voltou com mais de dois mil cliques e nós só podemos ver uma ou outra imagem no decorrer da leitura, como se fosse mero acessório. Achei esquisito. Ao contrário dos editores, no entanto, Steinbeck deixa Capa muito bem contextualizado no livro, dando sempre espaço de sobra na narrativa para a sua fotografia, além de compartilhar com o leitor bastante dos seus hábitos, manias e humor. São os relatos mais engraçados do livro. Ver o fotógrafo por trás daquelas (tão poucas) fotos que aparecem ali dá muito mais peso à sua participação na viagem e na produção do livro.

Não foi a minha leitura preferida do ano, mas é informativa e interessante, sempre curiosa e válida a investigação de diferentes culturas. Pessoalmente, tenho uma atração específica inexplicável pela Rússia, mas mesmo pra quem não compartilha desse entusiasmo, a leitura, pela escrita de Steinbeck, vale ainda, pelo menos, ★★★

O Guia do Mochileiro das Galáxias - Douglas AdamsEm seguida, comecei a série do Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Adams, e terminei o primeiro volume muito rapidinho. Estava com esses livros na minha lista de leituras há muitos anos, muitos mesmo, tipo 15, e só no início do ano passado eu acabei me deparando com eles numa promoção. Deixei-os a postos. Só muitos meses depois acabei realmente dando a chance.

Não sei o que eu esperava, mas fiquei um pouco confusa. Não sabia que era infanto-juvenil e de início fiquei bastante desanimada. A linguagem da literatura infanto-juvenil me afasta demais de me envolver com a história, provavelmente por falta de hábito, mesmo, e eu demoro muito a me acostumar com a escrita a ponto de ela não me chamar mais atenção do que a história em si. Depois que me acostumei, a leitura fluiu.

O humor do Douglas Adams é tipicamente inglês. Isso diz muito e, no meu caso, é ponto positivo. Pra quem gosta da série Doctor Who, que inclusive tem também uma abordagem ligeiramente infantil, essa “trilogia em quatro volumes” cai como uma luva. Eu adoro Doctor Who, com todas as bobagens incluídas. Muito carinho. Pra mim, as bobagens funcionam melhor na tela do que na escrita. Aliás, a responsabilidade pode inclusive ser da tradução, eu não saberia dizer.

No fim das contas, o livro é divertido. Absolutamente maluco e livre de quaisquer censuras criativas. Tudo pode acontecer, e eu fui surpreendida em vários acontecimentos. É uma leitura rápida e leve. E, assim espero, despretensiosa. Acho conveniente ter esse tipo de literatura por perto, de vez em quando. ★★★

Search Inside Yourself - Chade-Meng TanDia 15, terminei Search Inside Yourself, que estava em andamento já há um tempinho. Por ser um livro teórico, muito informativo, é uma leitura obrigatoriamente mais lenta.

O autor, Chade-Meng Tan, é engenheiro da Google e desenvolveu um curso, homônimo ao livro, com a intenção de espalhar pelo mundo a prática da meditação. Mais especificamente, a  meditação mindfulness, termo que eu não sei como se traduz, mas bem grosseiramente poderia ser algo como atenção, em português. O significado em inglês é muito mais abrangente e específico, mas é por aí.

Esse livro é resultado de toda a pesquisa e aplicação desse curso, no qual ele e toda uma equipe ensinam, em vários exercícios, modos objetivos de se desenvolver a atenção a si e ao ambiente. As consequências dessa atividade possibilitam o aprimoramento da nossa vida pessoal, o que obrigatoriamente acarreta na melhoria do mundo externo.

É interessante que essa prática, tão relacionada à religião e à espiritualidade, apareça cada vez mais amparada pela ciência. Um engenheiro explicando formalmente o mecanismo da meditação é no mínimo curioso.

O objetivo final, de acordo com o próprio autor, é a paz mundial, o que eu acho realmente uma graça. Pra muita gente, pode parecer bobagem. Chade-Meng Tan é conhecido entre os colegas como “o bom camarada” (the jolly good fellow), tipo de gente que pode ser também considerada boba e, por algum motivo obscuro, incômoda pra algumas pessoas. Mas não há nada mais nobre do que um indivíduo que dedica honestamente a maior parte da sua vida propagando e tentando tornar a paz mundial algo real.

Não tem fim a quantidade de gente, de todas as áreas e ofícios, a garantir a importância da prática da meditação. Não é algo a ser ignorado. Essa é uma leitura densa, cheia de sugestões de exercícios muito claramente descritos. Nada a ser absorvido imediatamente, é o tipo de livro pra onde voltar várias e várias vezes. ★★★★

A Festa de Babette - Isak DinesenEm seguida resolvi ler algo mais rápido e leve, e peguei uma edição bem velhinha de A Festa de Babette (e Outras Anedotas do Destino) que minha mãe tem há muitos anos e eu sempre deixei pra depois.

Terminei dia 21 e não era nada do que eu esperava. O livro abre com a novela A Festa de Babette, que foi o meu choque inicial simplesmente porque, com essas liberdades imaginativas que a gente toma, eu esperava que fosse ser outra coisa completamente diferente. Por motivo nenhum, porque, a não ser pelo título abundantemente aludido, eu nunca tive contato nenhum com a história em si. Agora nem consigo dizer exatamente o que eu esperava, mas foi diferente, o que não é sinônimo de ruim, e eu logo me adaptei ao que estava sendo oferecido e aceitei de bom grado e gostei demais mesmo.

Nos contos seguintes, eu já estava familiarizada com o estilo e aberta a ser surpreendida, e por isso sou grata. A escrita de Isak Dinesen, pseudônimo de Karen Blixen, é antiga, mas ela não é. Esse livro é de 1956, mas poderia ser do século XIX. É estranho, mas ‘tá liberado, então por que não, né? Ironicamente, achei um frescor, como estilo. E as histórias, todas com toques daquela estranheza sempre bem-vinda. ★★★★

O Restaurante no Fim do Universo - Douglas AdamsDia 28, terminei O Restaurante no Fim do Universo, que é o segundo volume da série do Guia do Mochileiro das Galáxias. Muito mais legal que o primeiro, por algum motivo sutil que me passou despercebido, porque o estilo é exatamente o mesmo. Não sei se porque já sabia o que esperar da linguagem da escrita, e mesmo do humor do Douglas Adams, mas esse segundo livro me prendeu e divertiu muito mais. Novo fôlego pro próximo, que vai ser minha primeira leitura do ano. ★★★★

 

No mensário de janeiro me despeço dessa classificação estelar. Acho. Ah, não sei. É tão pouco precisa e tão grosseira, mas resume de forma tão prática, e me obriga a tomar decisões objetivas, o que é sempre um desafio pra mim… o que você acha?

desafio livrada 2015

O Desafio Livrada é um desafio literário proposto pelo blog Livrada! há alguns anos, parece. Eu só conheci esse ano, porque o blog agora tem um canal no YouTube e o projeto foi divulgado por lá também. Achei super válido porque é uma lista com 15 “desafios” de leituras a ser feitas no curso do ano, e o objetivo é a diversificação, que foi o que mais me interessou.

Eis o vídeo de apresentação do desafio:

Eu estava muito focada em recuperar meu atraso com os clássicos, então essas leituras serviram pra me trazer muita experiência nova e ampliar meu horizonte um pouco. Valeu totalmente a pena e ano que vem, se tiver, faço esse compromisso de novo!

Minhas escolhas foram tomadas com a prioridade de: livros que já tinha na biblioteca dos meus parentes mais próximos. E tive belas surpresas. Gravei um vídeo falando um pouco da experiência de cada leitura:

as missões:

1. um livro policial: un lieu incertain – fred vargas

2. um livro infanto-juvenil: o mistério da cidade-fantasma – marçal aquino

3. um livro de ficção científica: sonhos de robô – isaac asimov

4. um livro escrito antes do século xx: eugênia grandet – honoré de balzac

5. um livro de ensaios, artigos ou crítica literária: o cinema de meus olhos – vinicius de moraes

6. um livro que você já está querendo ler há mais de dois anos: contos fantásticos do século xix

7. um romance com protagonista feminino: cadê você bernadette? – maria semple | clarissa – erico verissimo

8. um romance africano: o outro pé da sereia – mia couto

9. uma peça de teatro: assim que passarem cinco anos – federico garcía lorca | parafuso – pablo assumpção | noite de reis – william shakespeare

10. um romance de realismo maravilhoso latino-americano: like water for chocolate – laura esquivel

11. um livro que todo mundo diz que merece uma chance mas você acha que não: cem anos de solidão – gabriel garcía márquez

12. uma biografia: hamlet e o filho do padeiro – augusto boal | just kids – patti smith

13. um livro-reportagem: um diário russo – john steinbeck e robert capa

14. um livro que virou filme: the great gatsby – f. scott fitzgerald

15. “pastoral americana” – philip roth

livros

Eu gosto muito de livros. E eu gosto muito de ler. São duas coisas diferentes, a leitura e o objeto livro.

Acho muito mais confortável ler um livro de bolso, desses pequenos que se pode dobrar e arregaçar e que, por serem produzidos em grande massa por um baixo valor monetário, se pode riscar e rabiscar sem nenhum peso na consciência. Não me importo em ler em telas eletrônicas, tem suas vantagens, mas não é minha primeira opção. Acho a interação física com o livro, de passar páginas, segurá-lo, marcar algumas passagens ou mesmo fazer anotações, uma experiência muito além de simplesmente receber o conteúdo (seja ele de ficção ou didático). Nunca ouvi um livro, mas essa é outra atividade, que não se chama leitura e nem se trata de um objeto, portanto não entra no mérito.

Eu gosto muito de livros, de qualquer tamanho, capa dura, brochura, grandão, pequenininho, novo ou velho, rabiscado, com páginas dobradas ou impecavelmente novos. Gosto do objeto do livro como decoração automática, como potencial de conhecimento. Gosto deles como intrigantes variáveis de um mesmo princípio, como tradição, como lazer, enfim, como fetiche, posso dizer, no sentido de que não existe exatamente uma explicação racional pra esse tipo de interesse apaixonado.

Apesar disso, não sou colecionadora de livros. Sou adepta de manter um ambiente mais modesto e limpo. Visualmente, e psicologicamente, não gosto de excessos, então não faço questão de tê-los em enorme quantidade, de tê-los em posse, de mantê-los sob as minhas asas eternamente.

Sempre tive o hábito de ler livros emprestados, em grande maioria, porque esses já estão lá, sempre a postos, convenientes, me esperando ao alcance das minhas mãos. Mas aí chegou “o momento”. O momento em que as bibliotecas dos familiares e amigos ficaram limitadas. Eu queria ler novos autores, novos gêneros, alguns títulos específicos que não estavam ali. Bibliotecas públicas são maravilhosas, quando não estão do outro lado da cidade. Por isso, de uns dois anos pra cá minha biblioteca pessoal cresceu bastante. Comecei a comprar títulos em sebos e a pedi-los de presente quando me perguntavam o que eu gostaria de ganhar. (Sempre: comestíveis, velas perfumadas, creminhos cosméticos – todos esses produtos consumíveis que não vão ficar empilhados pra sempre no meu armário – ou livros. Ficadica.) Ainda assim, quando não me apaixono por um livro eu doo ou presenteio ou vendo/troco no sebo. Tenho comigo poucos livros por ler e outros poucos que se mostraram muito especiais.

Como alguém que gosta muito de livros, acho muito interessante o valor que se tem dado atualmente ao produto do livro, ao trabalho investido no processo de edição, encadernação e arte. Mas tenho medo que esse valor se perca, passando a importância do autor e do conteúdo a mero detalhe. Esse medo vem do BookTube. Eu acompanho vários canais literários, mas percebo em vários deles aquele fetiche do qual falei gritando muito mais alto do que o interesse por uma história e pela forma como ela foi contada.

Quantos e quais livros foram lidos por uma pessoa é algo que não indica nada. Ler com rapidez não significa ler melhor. Quem desenvolve o hábito lê com mais agilidade e assimila tudo com mais facilidade, mas ler um livro atrás do outro simplesmente pra seguir uma meta específica não passa de distração pra melhor vantagem de ler, que é absorver o conteúdo que está ali.

Quando me flagrei caída nesse tipo de armadilha, descobri que marcar um livro como lido só pra “fazer parte do clube”, só pra “me livrar” dele, não me serve de nada. O que não quer dizer que eu reprove metas e desafios. Acho-os super válidos pra manter motivado o ritmo desse hábito, também como parte da diversão, até, ou pra incentivar a variedade. Mas nada disso é um pacto de sangue, e se o desafio atrasar ou não for cumprido por inteiro, certamente ele serviu pra avivar o engajamento com a leitura, que afinal é uma atividade com tantos concorrentes.

Entre o fetiche pelo objeto e o interesse pela leitura, existem vários adeptos. Pessoas guardam livros de que não gostaram, ou em que não têm interesse, porque apreciam a capa ou o volume que preenche uma estante mais imponente. O aspecto físico é um dos fatores intrínsecos à condição de objeto de um livro físico, portanto não pode ser desprezado. No entanto, na minha balança, o conteúdo literário pesa muito mais. Pessoas tratam livros comuns como instrumentos sagrados; outras entendem um exemplar como artigo de interação, o qual se pode manusear livremente; outras mantêm justa a obsessão pela leitura e pelo objeto da leitura; um livro pode despertar zero interesse literário, ou pode este ser seu único fator relevante. Ainda bem que existe espaço no mundo pra todas as nossas manias.

Gostei muito deste artigo (em inglês) que defende de uma forma bastante passional a livre manipulação de um livro como objeto. Aliás, é algo que se pode dizer com segurança: de uma maneira ou de outra, não se pode ser indiferente à existência do livro.

diário de leitura: novembro 2015

Continuando com o ritmo manso (mas não por isso leve) do mês passado, concluí pra esse duas leituras que me exigiram bastante dedicação.

The Autobiography of Benjamin FranklinDia 12 eu terminei a Autobriography of Benjamin Franklin, que foi uma leitura bastante trabalhosa não só pelo inglês antigo, com um vocabulário mais complicado do que eu tenho costume, mas também porque foi uma leitura eletrônica. Esses livros que eu leio no aplicativo do Kindle sempre me tomam mais tempo. É realmente um tipo de experiência diferente daquela de ler um livro passando as folhas e tudo o mais. Claro, eu tenho aproveitado pra fazer ali as leituras clássicas de domínio público, que por enquanto têm sido de obras anglófonas, e não têm a escrita mais atual do mundo. Isso pesa, óbvio, mas o hábito de ler na tela também me retarda.

Enfim, ao assunto: a autobiografia do Franklin era tudo o que eu esperava ser. Praticamente já a conhecia inteira através de tantas e tantas referências que se faz à ela e ao estilo de vida do autor por aí. Sou uma grande fã, agora confirmada, de Benjamin Franklin. Pela simplicidade que ele cultivou até o fim e pelo esforço constante durante a vida inteira dele de ser uma pessoa cada vez melhor e útil à sociedade.

A segunda metade da narrativa, pra mim, foi mais arrastada. Quando começam relatos de esquemas de guerra e um discurso mais político, essa parte foi mais maçante pra mim de acompanhar. Depois ele faz referências à época em que começou a se dedicar aos experimentos com eletricidade, e com isso meu interesse voltou. Acho uma leitura fascinante, de uma pessoa fascinante, modesta, metódica, honesta. Vale a pena conhecer Benjamin Franklin por ele mesmo. ★★★★★

Pastoral Americana - Philip RothDaí, só dia 28 eu terminei a minha leitura seguinte: Pastoral Americana, do Philip Roth. Uma leitura bastante…. densa. Com esse livro eu retomei o meu Desafio Livrada, que tinha tirado umas férias, mas o ano está acabando e me faltavam ainda duas missões. Pastoral Americana era uma leitura “obrigatória” entre as categorias do desafio, e por isso sou muito grata. Do contrário dificilmente teria tido contato com esse autor, e não teria tido a chance dessa experiência incrível.

Pra mim, que tenho interesse na arte da escrita, me valeu imensamente também por uma aula. A construção do romance é inusual, pelo menos pra mim, e fantástica. Sobre a escrita em si, é feita com frases enormes, e alguns parágrafos tomam conta de mais de uma página. Com isso, um ritmo mais dilatado, que vai muito bem com o clima daquilo que se narra.

Aliás: a história da vida do judeu americano Seymour “Sueco” Levov, contata pelas palavras do escritor Nathan Zuckerman, que na verdade nunca teve tanto contato direto com o seu protagonista. Não mais do que ter sido amigo de infância do seu irmão mais novo. Com uma transição belamente montada entre a introdução e o início da história sobre a vida do Sueco, esse narrador começa, então, a contar uma história do Sueco a partir de suposições e imaginação, o que é o grande diferencial, e onde está a genialidade desse romance, na minha opinião. Fosse um relato “jornalístico” de uma biografia, mesmo que ficcional, não teria o mesmo peso, a mesma ironia, o mesmo caráter de certa forma absurdo.

Durante a leitura fui remetida ao Lolita, do Nabokov. Não sei ainda bem porque. Existe, sim, uma referência ao incesto, mas acho que muito mais o ritmo de narrativa, ou essa personalidade meio indiferentemente ácida do narrador. Enfim, valeu a dedicação! ★★★★★

Nota: Tenho tido dúvidas sobre esse sistema de avaliar uma leitura em estrelas. Classifico um livro aqui pelo meu aproveitamento pessoal da experiência e não por “qualidade literária”, que está além do meu poder definir. Minhas impressões são infinitamente mais subjetivas que isso, então tenho repensado esse sistema pro ano que vem. Veremos.

 

natureza solitária

Uma cabana no meio do mato. Em volta: mato. Uma cabana de madeira com teto alto e uma varanda na frente, onde balança uma cadeira de balanço. A cadeira balança a mim e eu não faço mais nada. Um livro repousa no meu colo. Um livro meio-lido, por agora adormecido.

Recebo o balanço da cadeira, a brisa que passa, os sons distantes e a paisagem. O sol já se despede, e um cobertor me abraça. Os pés descalços se recolhem na cadeira. O livro passa para as mãos, que o levam em um abraço.

Volto a nada fazer enquanto a noite cai e o vento dança. Sinto-me sozinha. De repente só e frágil. Então decido entrar, mas o corpo não obedece. Estou hipnotizada pelas cores no céu, que se pinta bem diante de mim, e meus olhos querem guardá-lo para sempre. A pintura parece finalmente pronta quando tudo é negro e as estrelas todas já brilham e eu já não estou mais sozinha. Nunca estive.

O cheiro da sopa quente me leva de volta pra dentro, onde a vida volta a ser. E passa.

17/03/15

algumas coisas que eu custo a aprender

  • não dá certo fazer exercício aeróbico descalça
  • não funciona pular etapas em nenhum processo: seja cozinhando, me vestindo, conduzindo qualquer projeto de qualquer natureza, mantendo a casa, aprendendo, ensinando, etc. etc. etc.
  • nunca valeu a pena abrir mão de mim mesma pelos outros. ser convencida, por alguma circunstância, a mudar de opinião ou de rumo, bem como manter a mente atenta e aberta é ótimo; agir contra o corpo e a consciência só pode dar errado
  • a perfeição não existe: sempre soará incompleto, sempre terá uma marquinha inconveniente, sempre “poderia ter sido melhor”, nunca estará pronto; tudo são apenas etapas em progressão
  • esta lista não é uma verdade definitiva e nem de perto resume “tudo”, mas ela é a informação capaz de ser articulada agora e, por qualquer palavra nela contida, é totalmente válida
  • nada precisa significar “ruim”

cabelo

Doei meu cabelo e achei que vale muito a pena. Óbvio que a ansiedade de gravar um vídeo me impediu de dizer tudo o que queria sobre o tópico capilar. Mas eu tenho umas observações interessantes a respeito dessa experiência especificamente:

Não é novidade pra mim ter cabelo curto, mas apesar de o meu liso natural ser ambição de muita gente, minha total falta de volume não é. A cabeleireira não teve problema nenhum em passar a tesoura na minha cabeça, mas os longos e cheios cabelos cacheados da minha cunhada foram eliminados com muita dor no coração. Ela mesma nos disse isso.

A nossa é uma cultura do cabelo comprido para a mulher, curto para o homem. quanto mais comprido, mais “sexy”, mais feminino (e ninguém gosta muito de um homem feminino por aqui, não é mesmo?).  Um senhor idoso que estava presente durante nosso corte disse pra minha cunhada que ela tinha “estragado a vida dela”, e nos disse que “o cabelo é a beleza da mulher”. Aparentemente o único valor em que podemos nos apoiar.

Pois ‘taí mais um argumento pra doarmos nosso cabelo! O nosso cresce de novo, o de quem não cresce vai fazer falta: as pessoas vão olhar duas vezes, vão ter “dó”, e não é todo mundo que tem força (ou paciência) pra aguentar essa atenção negativa toda.

É legal doar, e mais legal ainda é doar alguma coisa que a gente realmente valoriza!

✁ sobre essa e outras formas de ajudar (Brasília):

Rede Feminina de Combate ao Câncer
http://redefemininabrasilia.org.br/