andarilho ocasional

O desconforto da chuva; de estar a pé. Pouca bagagem. Muita fome. Tudo isso soa belíssimo no papel. Mas eu não faço a menor questão de sentir pra então poder poetizar. Quero escrever, quero ser ficção. Produção.

O conforto me distrai.

Estava, então, longe de qualquer possível abrigo quando a chuva caiu como um divino balde esvaziando-se para novo uso. Já sem nenhuma possibilidade de saída seca, pude passar dois bons segundos decidindo-me entre movimentar-me, para qualquer lado que fosse, ou permanecer parada contemplando o fantástico poder da natureza.

Em minha mochila ensopada, todos os meus escritos dos últimos cinco meses, entre poemas soltos e um romance adiantado do qual finalmente já sabia o fim e só faltava finalmente escrevê-lo. Também o colar que eu havia encontrado no dia anterior e que, por algum motivo, me pareceu tão valioso. Além disso, meu vestido e única muda de roupa que carregava comigo, minhas sandálias, meu único livro, documentos e uma maçã. O casaco e as botas surpreendentemente permaneceram firmes em suas tarefas contra a água, mas me preocupava a mochila.

Tirei mochila e casaco e com ele embrulhei-a como pude. Era eu ou ela. E então resolvi seguir pela mesma direção. Nenhum destino a vista durante pelo menos meia hora, mas eu não saberia dizer precisamente o tempo.

Enquanto desviava de poças maiores, em uma coreografia pela qual quase se podia escutar a sinfonia, deixei de perceber o peso que meu único suéter acumulava em meu corpo conforme encharcava-se, saturava-se de água e pingava seguidamente. Meus cabelos colados no rosto e mais nenhum sentimento. Dissiparam-se as dores psicológicas, as preocupações com quaisquer problemas, as crises existenciais e dúvidas sobre o futuro. Eu já não tinha mais nada, nem futuro. Eu era inteira o presente, portanto, nada havia o que perder.

Finalmente ouvi um carro passar, muito rapidamente, como um flash de luz, atestando que eu ainda vivia a vida real. Então a decepção.

Era muito escuro e eu enxergava muito pouco à frente. Senti medo de perigos animais e sobrenaturais. Senti de volta a dor no joelho esquerdo e o enorme cansaço nas costas. Mas a consciência de meus problemas talvez nunca mais voltassem a existir.

Haviam passado por mim mais uma hora de vida e alguns poucos flashes automotivos de luz quando a claridade de um vilarejo qualquer começou a pedir pela minha atenção. O cansaço era tanto que eu não pude apertar o passo. Nem consegui pensar em tal possibilidade, mas também não adiantaria, não sei se me sobraria tamanha energia pra mudar de ritmo naquele momento. Segui em frente.

Segui em frente.

Seguia em frente e a luz, dançando, parecia divertir-se com as minhas esperanças, afastando-se conforme eu avançava. Não faço ideia de quanto mais tempo se passou, pode ter sido uma vida inteira que eu perdi.

Quando me aproximei da primeira construção, ainda afastada do coletivo de luzes que eu enxergara há uma vida atrás, senti de volta todos os sentimentos e sensações da minha existência, num momento confuso que nunca saberei analisar em juízo de valor. A construção era um casebre em caminhos de se tornar ruínas, que não demorei a deduzir abandonado. Não pensei duas vezes para entrar.

Chovia quase tanto lá dentro quanto do lado de fora, sendo o escuro muito mais sombrio. Sentei-me com a bagagem no colo, meu tesouro, em um canto perto do pequeno buraco que se pôde talvez um dia chamar de janela. Era ainda muito molhado, mas menos escuro graças à cidade não tão distante. Eu não tinha como ficar mais molhada; há um fenômeno no universo chamado saturação.

Quis dormir, mas não conseguia, incapaz de me impedir a imaginação do que poderia estar dividindo abrigo comigo entre aquelas paredes. Que tipo de imundície ou espécie viva poderia estar ali? Minha criatividade voava, inventava e me assustava cada vez mais. Nada se via a centímetros ao meu redor. Isso mesmo com os olhos já acostumados à escuridão como os meus há tantas horas.

Acordei quando o forte som da chuva se distanciava rapidamente. Nem pude notar ter adormecido, nem poderia jamais dizer por quanto tempo assim fiquei. Confusa e mais dolorida do que nunca, tomei a decisão de consertar meu relógio de pulso como prioridade. Não que eu pudesse fazê-lo imediatamente.

Poderia ser mais um trovão, mas minha barriga implorava por qualquer migalha. Obriguei-me a não obedecê-la e fechei os olhos novamente. Acho que dormi bastante, naquela mesma posição sentada e debruçada sobre a mochila ainda protegida pelo casaco impermeável, encharcado.

Acordei novamente, com a luz do sol, ainda tímido, porém presente.

≺ Continua…

maurício

Você e o Maurício trabalharam juntos nas jovens, finadas épocas em que ambos desempenhavam a função de rapazes da copiadora na MadX, uma empresa sem escrúpulos que felizmente declarou falência três anos depois de você ter saído de lá. Maurício se ferrou e afundou junto naquele barco.

Hoje aconteceu de você se lembrar do Maurício, que era, sem sombra de dúvidas, seu melhor, possivelmente único amigo na empresa. Primordialmente pelo simples, porém essencial fato de que, apesar de odiarem o serviço bobo e repetitivo, tenham ambos desenvolvido a capacidade de se divertir com todas as pequenas besteiras de cada dia de trabalho. Eram considerados os grandes patetas da firma, e por isso ninguém mais suportava vocês dois. A alegria alheia incomoda, como já se sabe.

Aos sábados, vocês iam à praia jogar vôlei; nem futebol, nem futevôlei: vôlei. Motivo suficiente para bullying (que na época ainda não tinha nome nem a grande importância que tomou na sociedade) era também o comum interesse em quadrinhos japoneses, que se chamam mangás e não têm nada em comum com as revistinhas da Mônica, como costumava provocar a dona Carmen, da limpeza noturna. E todo mundo mais.

Você pensa em ligar pra ele, combinar de se encontrarem “qualquer dia desses”. Mas o dia de hoje entra no seu caminho e você deixa a lembrança, junto com suas intenções, passarem.

Daqui a mais uns quatro anos, você vai esbarrar com esse mesmo Maurício, grande Mauzão (um homem mirrado e bastante gentil). Não importa exatamente onde. Maurício terá se casado e divorciado, um filho já entrando na adolescência. Vocês vão ficar alegremente surpresos com o acaso, vão perguntar pelas novidades, só pra descobrirem o quanto estão atrasados na vida um do outro. Talvez marquem um almoço para a semana seguinte.

Então você descobre que seu antigo amigo também teve intenções de entrar em contato com você durante esses anos, mas infelizmente perdera as informações de seu contato e não sabia mais como encontrá-lo. Incrivelmente, nenhum dos dois adepto do Facebook.

Puxando assunto, você conta pra ele que finalmente deu uma chance ao One Piece, e que no fim das contas virou o seu mangá favorito, ele tinha razão. Mas Maurício não tem mais tempo de ler essas coisas; sua coleção inteira foi repassada ao filho. Como que pra se desculpar de tamanha traição, ele relembra os sábados de sol na praia; vocês os únicos a quererem jogar a bola com as mãos. Você confessa, meio encabulado, que já não tem mais paciência pra farofada que se tornou cada viagem à praia. Você agora nada todas as terças à noite numa piscina coberta de um clube bastante respeitado. Lugar limpo e animadamente frequentado por jovens solteiros em início de carreira (o que não é o seu caso nem a juventude nem o início de carreira, pensará consigo mesmo Maurício). Nada de crianças, graças; mas essa parte você omite no discurso, pra evitar conflito.

A natação é um bom exercício para seus joelhos já estragados por uma juventude ativa. Maurício ri, fazendo alguma piada sobre a idade já avançada de vocês, mas você não gosta muito da referência e responde apenas com um sorriso amarelo, pelo bem da antiga amizade. Está aí a deixa pra você estar “atrasadíssimo pra uma reunião”. Mas a gente se fala depois, “vamos marcar mesmo, hein?”!

Tchau, até mais! Muito bom te ver, cara!

Nesse curto reencontro, ou talvez até naquele almoço que vocês talvez consigam de fato realizar, vocês vão planejar muitas outras dessas reuniões casuais “dessa vez sem ser acidental!”, vocês riem. Planejam almoços, uma reunião com “o resto do pessoal”, quem sabe mesmo uma viagem curta de fim de semana.

Você volta pra casa com a certeza de que novos encontros jamais acontecerão. Pelo menos não os planejados. Não é que vocês não se gostem, ou não valorizem as lembranças de um outro tempo; a verdade é que você e Maurício já não têm mais tanto em comum.

Pra quê, então, essa ânsia de manter vivo, vegetativo, um passado ansioso pra se ver livre de existir? O medo de ter perdido tempo faz com que você, e o Maurício também, se esforcem pra guardar uma memória feliz de um passado que, no fim das contas, possivelmente nem foi tão próximo ao paraíso assim enquanto existia em realidade. Os dias de trabalho eram entediantes durante a maior parte do tempo, e em alguns sábados você queria simplesmente sentar de frente pra televisão e não assistir nada. A mecânica rotina, inconsciente, faz com que você, e o Maurício também, deixem de olhar pras outras oportunidades que se mostram bem diante de vocês. A mudança de perspectiva obriga a evidência desses novos caminhos como possibilidades, independentemente dos valores dualistas de bem-e-mal que foram forçados goela abaixo durante toda a sua vida. E a de Maurício também.

esperando por ela

Estou há dezessete minutos esperando por ela. É sempre assim. E apesar disso, eu sempre deixo de prever o previsível como se fosse uma acidental primeira vez. Esse restaurante fede ainda, não sei a quê; um cheiro gordo, velho, abafado. Mas tem umas ótimas pastas, e é especial para a nossa história, de toda forma. Enfim, acho que é.

Era, infelizmente, talvez, o único estabelecimento aberto naquele já início de madrugada, quando chovia e nós corremos em direção àquelas portas abertas, as únicas por ali, mais pra fugir de se molhar que em busca de refeição. E hoje eu me pergunto que tanto mau faria termos nos ensopado até chegar em casa, há cinco minutos de caminhada dali.

Tomamos um vinho barato que estava gostoso e dividimos uma sobremesa qualquer. E rimos muito. Naquele dia nós rimos muito. Lembro de tudo em câmera lenta. Não sei se porque essa chuva pesada nos lembra sempre as cenas mais poéticas do cinema (que permanece nosso maior interesse em comum), mas parece que nossa vida, naquele dia, foi uma bela de uma cena ápice de um romance bastante brega. O melhor tipo de romance que há, na minha opinião. Não na dela.

Estou há quarenta e oito minutos esperando por ela. No fim das contas, voltamos sempre aqui por puro hábito, muito mais que por interesse no lugar. É perto, está quase sempre aberto, serve refeições aconchegantes como bons pratos feitos por boas mães e avós. Tentei cozinhar durante uma fase da minha vida, mas nunca peguei gosto pela coisa, e nem ela pelo meu tempero. Talvez porque nunca tive muito tino pra ser mãe, menos ainda avó.

Estou há três dias esperando por ela. Estou nostálgica como se o nosso relacionamento já tivesse chegado ao fim. Às vezes eu preferiria que sim, só porque soa uma história mais relevante que a nossa alegria simplória do dia a dia. Vou buscá-la no aeroporto quando ela me disser exatamente o horário de sua chegada. Talvez ela chegue de trem, também não sei mais, porque ela muda de planos como quem muda de roupa. E, nossa, quanta roupa! Durante sua ausência pude limpar a casa e jogar fora as quinquilharias das quais ela tem medo de se desfazer mas que, certeza, nem vai se lembrar se não as vir.

Vamos jantar no restaurante aqui perto mesmo, porque ela vai chegar esgotada, mais por ter tido de lidar com tanta gente delicada por tantos dias seguidos que pelo trajeto em si. Vamos conversar muito, porque nosso papo sempre flui muito bem para qualquer assunto que apareça, e tomar aquele mesmo vinho de sempre e nos atualizar com os últimos acontecimentos. Já sei de antemão que ela vai ficar uma fera quando eu contar que fui ao cinema ver O Soldado sozinha. Depois vai rir e dizer que também foi obrigada a assistir, mais pra fugir das pessoas que pra aproveitar a sessão, porque aquele segundo dia fora realmente insuportável e ela precisava relaxar sozinha. E eu vou rir porque, conhecendo-a, já sabia. Não, o fim ainda não chegou.

Estou há nove meses esperando por ela. Ela não sabe de nada ainda. Eu, menos. Nunca achei que tivesse tino pra ser mãe. Mas de resto, tudo já está em ordem. O berço é de segunda mãe… mão, mas está em ótimo estado. As roupas são de todas as cores, porque filha minha não merece sofrer desde o nascimento o peso avassalador da cor rosa na vida de uma mulher. Ou de qualquer outra, for that matter. Estou no restaurante mais próximo de casa, porque estou com o sexto-sentido de que ela não tarda a chegar, portanto já não me afasto muito de casa, onde há uma semana está pronta a nossa mala. Em breve minha vida será outra, que nasce com ela. É um começo promissor.

Estou há doze anos esperando por ela, mesmo sabendo que não volta. Sou bastante prática pra não perder tempo com esperança ilusória; mas não o suficiente pra não desejar que tudo fosse diferente. Estávamos no nosso restaurante preferido – o que não indica por nada que fosse o melhor das redondezas (de nenhuma redondeza); na verdade era bastante simplório e cheio de defeitos, mas era o nosso – quando aconteceu. Estávamos no nosso restaurante preferido quando aconteceu. Aconteceu. Ela sempre foi muito saudável, então eu sofri uma verdadeira surpresa. Péssima surpresa, sofrida. Surpresa pra mim, pelo menos. Já no hospital, ela tentava me acalmar dizendo que estava tudo bem, que ela já estava bastante planejada pra tudo isso. Eu, deixada no escuro, sentia raiva, dessas raivas sem direção, que culpam o que quer que apareça pela frente, mais pela doença em si que por ter sido deixada na ignorância. Ela totalmente conformada e, eu diria, até satisfeita, o que aumentava a minha raiva.

Nós frequentávamos esse restaurante desde que ela perdera o ânimo com a cozinha, alguns poucos anos antes. Já era velha, preferia ser servida afinal, só pra variar. O lugar tinha um cheiro esquisito, inidentificável; ares abafados. Mas estava quase sempre aberto e servia refeições aconchegantes como bons pratos feitos por boas mães e avós. Como ela. Como os bons pratos que ela cozinhara pra mim a vida toda. Foi esse o último dia. Nosso último dia. O fim chegara, afinal.

Estou a vida toda esperando por ela. E tudo bem; é um pouco do que me faz viva.

eu cidade

Eu amo Brasília. Não acho que seja uma cidade ruim, de forma alguma. É organizada, arborizada, limpa e tem aparência interessante. Um amor, realmente. Eu sempre achei que fosse a cidade pra mim.

Brasília não é a cidade pra mim porque a minha cidade tem que ter calçadas e gente na rua. Eu, andando nas ruas da minha cidade. Depois de um parágrafo inicial como esse acima, é evidente que o restante do texto contenha um mar de reclamações previsíveis.

E por falar nisso, Brasília carrega essa característica do previsível, com todas as ruas seguindo exatamente a mesma fórmula. Um novato na cidade costuma achá-la um labirinto, onde todos os caminhos são exatamente iguais. Não é bem assim: quem mora se acostuma a ver as diferenças nos pequenos detalhes. Mas ainda, tudo tem as mesmas medidas e as mesmas disposições. Muitos carros, cada vez mais carros, e nenhum espaço onde as pessoas possam se deslocar a pé. Aliás, espaço de sobra entre as construções, o que torna qualquer passeio a pé verdadeira peregrinação. Então Brasília não é a minha cidade, porque a minha cidade é bem menos pretensiosa.

As pessoas de Brasília seguem o modelo de onde vivem: são quadradas, previsíveis e se acham maiores do que são em realidade. Mesmo os artistas, mesmo os alternativos são tão previsivelmente alternativos nas suas ideias, na sua forma de vestir, nos lugares que frequentam, que é um tédio só. É absolutamente normal que toda cidade empreste sua personalidade à população. Ou talvez aconteça justamente o contrário. Brasília é uma patricinha de vida fácil, com o destino todo planejado desde o seu nascimento, até o curso (de direito) na faculdade; sabe como será o perfil do seu marido e como vai viver o resto da vida. Sei que esta não sou eu. Escolhi não ser. Não sou Brasília. Mas então sou onde?

Acho que sou uma cidade do interior, completamente anônima. Nesse caso, caem as chances de eu ser uma cidade brasileira, porque os pequenos povoados nacionais crescem desgovernadamente em beiras de estrada sem cuidado nenhum. Qualquer cidade europeia costuma ser muito cuidadosa com suas fachadas (mesmo que por obrigação), com comércio de produção local, onde se trocam experiências interpessoais nas lojinhas ou ali na próxima praça, onde de vez em quando acontece um festival local super bem organizado pelos próprios habitantes. Essa é a minha referência.

No Brasil, eu poderia ser uma cidade histórica do interior mineiro. Cidade de pedra, de história e de simplicidade. Sou cidade de serra mais que de praia. Sou uma cidade organizada, mas bastante modesta, pequena e aconchegante. Meu governo é honesto e colaborativo; talvez meu governo seja nórdico ou, talvez, no fim das contas, eu não exista mesmo.

feliz ano novo dois

Uma explosão. O barulho muito alto, e ele estava bem ali ao lado. Era ano novo de novo, e sua família nunca deu importância que ele fosse muito mais sensível ao som do que os outros. Porque nasceu assim, simplesmente. Ficou surdo do ouvido esquerdo quando alguém na família resolveu soltar fogos no quintal, poucos anos antes. Perdeu aos poucos a audição direita também, até ficar completamente surdo ao longo dos anos seguintes.

Estar surdo era desconfortável. As coisas se mexiam num silêncio absurdo. Ninguém tinha mais tanta paciência. Ele quase desejou ser surdo de nascimento, assim já seria profissional na linguagem dos sinais e já teria desenvolvido alguns superpoderes com os outros sentidos. Conforto sempre foi a sua prioridade. O melhor lugar da casa era sua cama, em frente da qual havia uma televisão. Uma TV sem cor, mas tudo bem, porque ele só gostava era da dinâmica das imagens.

Aos poucos ele foi percebendo a diferença de distância das pessoas em relação a si mesmo. Uma coisa de energia, talvez. Aos poucos ele pôde saber com mais agilidade quem se aproximava, e outros truques também. Mas ficara mais antissocial. Logo ele, que sempre fizera questão de receber todas as visitas e participar de todos os encontros, sempre muito participativo e animado. Agora se sentia um velho cheio de falhas. Assim ele pensava sobre os velhos. Ele ainda tão jovem.

Deitado, ele observava as bocas das pessoas. Os risos doíam mais. Eram ainda mais silenciosos. Eram como segredos que só ele não podia saber. Antigamente, era gostoso reconhecer as vozes das pessoas: ele não errava nunca. Pelo som dos passos, ele sabia sempre quem estava prestes a chegar.

Às vezes sentia-se um pouco abandonado pela família. Daí alguém dava uma atenção rápida pra ele e ele amava o mundo de novo. Às vezes sabia receber um carinho especial de alguém por dó de sua condição. De qualquer forma, nunca deixou de balançar o rabo pra ninguém. Os afagos valiam mais do que qualquer barulho, e os próximos anos novos ele poderia passar dormindo tranquilamente na sua gorda almofada da sala, com vista pra televisão.

rascunho D. ou: tristeza pelo mundo

Que partes da minha vida material eu posso viver sem?

“O que é isso que está acontecendo com o mundo? Estamos virando bichos selvagens? Ou nunca deixamos de ser? Até onde vai a intolerância, a indiferença, a completa carência de empatia? Conseguiremos alcançar a paz mundial algum dia? O que é a paz mundial? O bem coletivo permite a existência de satisfação individual?”

Assim podemos sempre começar a escrever qualquer novo artigo, de forma bastante vaga e batida, levando a violência o mais distante de nós que pudermos. Com muitos questionamentos e nenhuma resposta. Porque todo mundo quer a paz mundial, mas ninguém vai fazer nada enquanto a guerra não chegar dentro de casa. Queremos justiça, a não ser que a vantagem seja nossa.

Esses dias eu tenho estado bastante triste com o clima apático na minha casa. Resolvi largar o medo, sempre acompanhado de uma enorme preguiça, e apontar algumas direções de convivência familiar com as quais eu não estou satisfeita. Tirei o elemento “família” um pouco do comodismo, e também eu mesma, e agora ficar em casa tornou-se desconfortável de novo, tantas são as pequenas adversidades que se acumulam embaixo do tapete e sempre voltam à tona. Isso tudo acontece provavelmente porque eu tenho tempo livre demais e passo quase todo o meu dia trabalhando (ok, às vezes só enrolando) caseiramente.

Mas em casa eu tenho segurança. pode até ser falsa, mas me conforta. essa sexta-feira, que aconteceu de ser 13 mas tanto faz, foi um péssimo dia na minha vida. Muito bom para diários e reflexões e talvez até poemas muito sofridos, entretanto. Mas eu não escrevo poesia. Foi um dia essencialmente desconfortável. Chato, difícil, mas Oh!, como é complicada a minha vidinha fácil, não é? Não estou reclamando, mas todo mundo tem o direito de ficar confuso.

No fim de semana eu recebi a notícia, por uma amiga, de que um amigo muito querido que temos em comum foi assaltado na madrugada dessa mesma dolorosa sexta-feira. A situação se agravou e ele acabou gravemente machucado e levado pro hospital, onde precisou passar por uma cirurgia e perdeu bastante sangue.

Eu tenho estado muito distante dos meus amigos. Distância física mesmo, porque de resto sempre penso neles e os vejo ainda como pessoas intimamente próximas. Mas de que serve tanto pensamento senão pra eu fingir que tudo continua igual, não é? Não tenho encontrado meus amigos simplesmente porque tenho me preocupado bastante com as minhas próprias crises que, sendo fundamentadas ou não, são minhas e terão minha atenção sim, muito obrigada.

Acompanho a vida deles de muito perto, porque vivo no mesmo mundo que você, no qual somos plateia virtual um do outro em infinitos links pessoais online. É assim que eu tenho matado saudades, porque não tenho sido mesmo uma boa amiga e não tenho reservado nada do meu tempo a essas pessoas que eu insisto em dizer tão queridas. A família que a gente escolhe, dizem. Dizem?

Foi um tempo sozinha que eu ainda preciso, o que aconteceu sem planejamento meu e eles aceitaram de forma natural, mantendo-se ainda assim disponíveis a mim, como acontece com amigos de verdade.

Obviamente eu também sempre estou encontrável por ligações e mensagens para os momentos de real necessidade, e foi como aconteceu no fim de semana. Não queria que o contato precisasse se dar por um motivo nem de perto parecido com esse. Mas “apesar dos pesares”, muitos sentimentos foram despertados com essa notícia telefônica. Muitas reflexões sobre a minha própria vida, a minha família, o meu futuro e o futuro dos meus amigos. Que eu desejo ser longo e sempre de alguma forma próximo a mim.

Não sei qual é o meu ponto num escrito como esse. estou claramente confusa e triste. Parece que apareceu uma razão verdadeira para a minha tristeza de menina mimada. Visitei meu amigo, agora estável, e ele até arriscou um sorriso cansado. Tudo vai ficar bem no corpo dele, e do psicológico cuidaremos todos juntos, aos poucos.

Eu até tentaria fazer um texto político contra a violência na cidade, no país, no coração das pessoas. Aparentemente é muito mais fácil falar dos erros no mundo que dos acontecimentos do nosso mundo pessoal. Mas meu foco não são os bandidos, os motivos, os problemas nem as soluções. Porque eu sou uma menina de diários e sentimentos pequenos, de detalhes e de um egocentrismo desmesurado. Acho que o mundo tem lugar pro meu ângulo de visão também.

É uma merda existir violência e intolerância, mas no fim das contas a diferença pode às vezes ser mesmo chata de lidar. Eu mesma queria que todo mundo respeitasse o espaço um do outro, como eu faço. Queria consertar o mundo do meu jeito, mas isso só serviria pra ficar mais óbvia a enorme quantidade de erros que eu penso por segundo. Como você também.

Às vezes fica muito enfadonho sermos peças distintas de uma verdade só. porque assim nunca chegaremos até ela, a não ser quando todo mundo junto resolver se encaixar. Adivinha quando?

Tudo de errado é uma merda, mas a merda mesmo é quando o errado é óbvio e invade o nosso mundo cômodo. Pode ser a vida difícil que for, uma mudança surpresa sempre sacode o chão, equilíbrio se vai e buf, mais uma queda. Não sei se buf é uma onomatopeia oficialmente válida. Eu queria que não existisse violência, mas especialmente, que ela não chegasse perto de mim. Não me julgue, eu estou tão preocupada com o meu próprio conforto que você com o seu. E ninguém ‘tá errado nisso.

Não sei terminar de escrever, como também não soube começar nem conectar o que eu sinto. Eu sinto muito.

sexta-feira 13, de setembro

Decidi ir embora da casa dos meus pais. Claro que é mentira, mas mantendo esse pensamento, resolvi rever minha vida material e fantasiar um pouco. Quer dizer, sobre meus pertences e minhas possibilidades. Nada que seja realmente meu, mas presente é presente. Então, pensando como meu, quero reorganizar o que eu tenho nesse mundo-quarto. E assim abrir caminho pra rever minha vida inteira. E começar agir. Agir significando fazer o que eu decidir… e decidir é a parte difícil.

Pensei em ir embora pra casa dos meus avós lá na esquina do Brasil. Curtir a velhice da minha gatinha, aprender algo válido com eles. Mudar de ares, principalmente. Descobrir quais tantas outras possibilidades são essas que eu quero achar. Passagem de ida. Mas isso seria mais uma fuga, como todas as anteriores, que aliviam mas nunca resolvem.

Meu único real laço aqui é o meu namorado, que está por enquanto na carreira de estudante e já fez algumas das escolhas dele. Nem todas me apetecem, então eu acho que enquanto ele termina mais um curso eu posso mudar de ares e me descobrir na vida como uma pessoa inteira e importante. Independente e feliz. Não tenho certeza quanto a isso. Acho muito maior a chance de eu amarelar e continuar do jeito que sempre foi. Mas posso deixar o pessimismo de lado um pouquinho e sonhar, que não me custa nada que não um pouco da minha já escassa sanidade mental.

Hoje também decidi que vou me consultar com um psiquiatra e descobrir que nome dar às minhas frescuras emocionais, dramas e chiliques. A única coisa que eu quero é confirmar que o que eu tenho é só manha ou se tem alguma nomenclatura clínica ou comportamental e de repente um remedinho que possa me ajudar. Me ajustar. Também vou aos outros médicos que eu adiei, fazer meu exame de sangue, doar sangue e depois emagrecer de novo. Fazer muitos exercícios e viver da minha imagem bem como das minhas palavras. Viver como modelo de vida, como inspiração, como uma autoajuda ambulante pras pessoas que precisam de uma força. Essa é a minha vocação. E claro, aquela coisa de consultora em organização também parece interessante demais. Não faço a menor ideia de como se começa um trabalho desses. Nenhum deles. Mas algum passo eu posso dar, mesmo errado. Quanto mais passos errados eu der, mais certo de acertar eu estarei. Gosto de pensar assim e acho que faz algum sentido. Acho que vou recomeçar um diário em papel. Tenho vários cadernos em branco, que são tão lindos que eu tenho dó de usar. Talvez seja um bom momento.

Aliás, quando penso em viver só com uma Mala Vermelha, minha primeira preocupação é onde colocar tantos diários antigos. Já aprendi que esse é o tipo de coisa que não se joga fora. Já joguei tantos dos meus jovens escritos fora e me arrependo de cada um deles. Penso em vários projetos legais que posso levar adiante. Eu tenho muitas possibilidades, já que não preciso trabalhar oficialmente e fazer sacrifícios pra viver. É melhor que não fazer nada e assim eu vou estar aprendendo alguma coisa. Fazer filmes, artigos, fotos e aprender sobre eles, aprender sobre trabalho, sobre mim mesma, sei lá, mas algum aprendizado sempre se tira. Eu realmente espero que sempre se tire algum aprendizado de qualquer experiência, porque eu sempre sofro muito com os acontecimentos. E, não sei, espero que valha alguma coisa. Claro que eu pretendo tomar uma atitude quanto a isso, mas o meu passado já aconteceu e eu não posso mudá-lo e eu gostaria que todos os meus erros não fossem em vão. Porque cometi muitos deles.

sobre o resto do mundo

Qual a sua causa? Pelo que você vive? Minorias são a maioria no mundo, as pequenas causas são essenciais aos pequenos envolvidos. E existem causas demais. Qual eu vou escolher? A causa dos artistas ou dos gatos abandonados? E se eu escolho os gatos, o que será dos cães? Como farão os animais silvestres traficados se não houver alguém que lute pelos seus direitos? Direitos esses que a maioria não acha válidos, porque são “só bichos”.

E como alguém pode se preocupar com os animais tendo tanta criancinha passando fome? Tão ingênuas, puras, indefesas. As crianças são o futuro. Os idosos, não. Os idosos já tiveram o seu tempo e agora não passam de peso morto na sociedade. Só que não. Quem vai se levantar pelos velhinhos, às vezes agredidos verbal e fisicamente, sem mais força pra se defender por si mesmos. Velhinhos esses que, em sua maioria, passaram parte da vida criando um jovem pra tomar conta do mundo.

E as causas pelo mundo? Pela ciência e pela paz, pelas mães solteiras, pelos homossexuais; tantas pessoas sofrem violências em tanta forma diferente e acabam caladas à força. E as causas pelos doentes; eles não podem lutar sozinhos enquanto presos numa cama. Maca.

Eu hoje em dia vivo por uma causa muito nobre, simples, mas às vezes super difícil: a minha própria. Entretanto, assistindo a um desenho animado muito bobo, acabei por ter pensamentos sérios. Sobre o resto do mundo. Sei que não dá pra abraçar todas as causas só com os meus braços. Nem com a minha influência. Nem com dinheiro. Acho que se é pra ajudar, é bom que ajudemos até o problema não mais existir. E aí sim passar pro próximo desafio. Quer dizer erradicar uma doença no mundo? Eu acho que é muito mais simples, em cada passo; cada pessoa. Todos os problemas são uma questão de mentalidade. O que os faz na verdade uma missão mais descomplicada, mas às vezes dá preguiça de fazer direito: não entregue o peixe, ensine a pescar. Essas coisas.

Um bicho com um lar de cada vez. Castrado, saudável, amado. Um indivíduo de cada vez, estudado, saudável, com conhecimento suficiente pra lutar com os próprios braços e ser ele mesmo mais uma mente consciente pra ele mesmo escolher as suas causas. Assim se espalha a consciência, o respeito a qualquer próximo que esteja próximo da próxima mente indefesa precisando de ajuda. Todo mundo que não está feliz quer ajuda. Alguns não sabem aceitá-la. Algumas pessoas têm conceitos diferentes do que é felicidade, porque desejam demais. Aprendi que a felicidade está na ausência do desejo. No desprendimento de uma mente liberta.

Quer dizer, cada um por si encontrando harmonia e equilíbrio e o mundo está a salvo. Não é todo mundo que precisa ter um bicho de estimação. Mas castrar um deles é um problema resolvido a longo prazo. Toda família tem um patriarca, uma matriarca. Eles não vão viver pra sempre, então não é nada demais cuidá-los com carinho e com isso aproveitar o egoísmo saudável que todos temos e tirar deles conhecimento, seja do tipo popular ou acadêmico: tudo é conhecimento de vida. Eles erraram e podem evitar que erremos igual.

Daí existem problemas de uma sociedade inteira. Governos burros se resolvem pelo povo. Mas o povo é uma massa e a massa é mesmo burra, não interessa o grau de inteligência individual. É entretanto poderosa quando liderada por uma mente brilhante, e pode virar o jogo. Pouca gente muito concentrada resolve o problema de um povo todo.

O poder da organização começa no simples. A organização física juntamente com as mentes livres formam o poder de um mundo saudável. Equilíbrio individual conjunto à harmonia universal. Não é lindo?

Cada um faz a sua parte, porque de fato tem gosto pra tudo. Não precisamos todos ser médicos pra resolver as doenças do mundo. Até porque resolver todas as doenças do mundo não resolve a fome nem a burrice, não resolve a injustiça humana. Não precisamos todos aderir a todas as causas do mundo, mas precisamos de pelo menos uma. Todas aquelas que conseguirmos abraçar, porque é meio que uma razão pra se estar aqui. E isso definitivamente vai trazer alguma sensaçãozinha, mesmo mínima, que se possa apelidar felicidade.

louise

Eu sinto um pouco de raiva, sim. Não é raiva de nada, nem de ninguém em específico. É só raiva, sentimento intransitivo. Pode? Mais um trabalho meu não deu certo. Não sei bem quanto vai durar essa minha transição de estudante a cidadã contribuinte, mas o fato de estar demorando tão mais que com meus colegas de idade tem se tornado uma preocupação crescente pra mim. Talvez seja até esse mesmo o problema: eu tenho tempo e conforto demais pra me preocupar enquanto outras pessoas simplesmente têm de fazer. Fazer o quê, qualquer coisa, ué! Alguma coisa.

Não sei se é a sensação de ser útil ou se é dinheiro, o que eu quero. Sei que tenho 25 anos e escrevo melhor que muito PhD ou muito velhote por aí. Muito cabelo branco, muita pose e roupas ajustadas demais a uma postura que não passa de fachada. As pessoas não são competentes. E no entanto ‘tá todo mundo fazendo alguma coisa. Na maior incompetência. Eu não tenho formação de nada, porque largo tudo pela metade, mas posso mais que mais da metade. Das pessoas que eu conheço. E no entanto não faço nada. Não fiz nada. Até hoje eu não consigo pensar em nada que eu tenha realizado pra fazer o mundo melhor. Eu faço tudo melhor pra mim, no meu quarto. Só.

E agora eu penso tanto em querer que alguém me leia, que meus talentos literários se vão embora também. É muito desejo dentro de uma pessoa tão pequena. E quando eu digo pequena, quero dizer insignificante. Um dia terei um livro pronto pra se tornar best-seller e eu não precisarei nunca mais trabalhar. Eu poderia ser útil em infinitas posições na sociedade, desempenhando vários papéis e… mas que brega “desempenhar papéis”! Quem no mundo almeja desempenhar papéis? Como o mundo continua girando se no fim das contas as pessoas não estão fazendo absolutamente nada por ele?! Cumprir carga-horária.

Não deu certo o trabalho da revisão. O cara duvidou de mim porque não tenho diploma. Mas deu errado mesmo porque eu desejei demais. Porque estava fácil demais, porque eu já estava acomodada demais em menos de uma semana. Eu sei lá porque não deu certo. Sei que esse tipo de tristeza, ou raiva (ok, pode ser decepção), por que as pessoas passam durante qualquer derrota costuma motivá-las a encontrar novos caminhos. Eu só quero deitar no meu travesseiro confortável e fingir que nada aconteceu. Meu nome é Louise e ninguém precisa ter diploma da Sorbonne pra saber que a letra ó não se pronuncia. E no entanto sou chamada de L-o-u-i-s-e com muito mais frequência que o contrário. Tenho crises existenciais só por causa disso. Eu seria outra se meu nome se pronunciasse com um ó.

Gosto de me denominar freelancer. É outra palavra que ninguém precisa ter vivido em Nova York pra saber do que se trata. Mas a verdade é que sou desempregada, porque, muito além disso, sou desprofissionada. Sou tudo o que desejarem de mim, porque sou sagaz e dedicada. Sou do tipo perfeccionista. Mas ninguém quer nada de mim sem um reconhecimento formal. Quem se importa, eu só quero fazer o mundo girar. E o mundo não precisa de mim pra isso e, nossa, como dói.

Eu ocupo um quarto na casa dos meus pais. Um quarto decorado por mim mesma, um conforto raro no mundo, eu sei, uma vida fácil demais. Ninguém nunca me pediu nada em troca. Eu achei que depois dessa decepção eu iria enfiar a cara nos papéis e fazer deles arte. Definitivamente. Iria despejar toda a minha “dor”, iria responder às aflições de tantos jovens perdidos como eu. Iria falar ao coração… estou perdendo a paciência comigo mesma com essa pobreza nas palavras. Iria falar ao coração de leitores sem rostos. Tanto faz. Eu não quero fazer o que tenho de fazer. Quero ser útil, contanto que seja do meu jeito. É patético o quanto eu sou mimada. Não sei se minha alegria era pela segurança de sentir que agora eu tinha uma profissão, algo em que eu era boa, ou se por me sentir útil. Assim poderia demonstrar de verdade a gratidão de ter um canto nessa Terra. Eu sinto como se precisasse justificar a minha existência de alguma forma. E não é decorando meu quarto e nem juntando conhecimento pra mim mesma ou assistindo ao que os outros fazem enquanto pinto a unha e desejo roupas novas.

E revendo o que eu escrevo, eu só falo eu o tempo inteiro. Como todo artista. Que ano! Parece que nada deu certo e eu sinto que no fim das contas eu nem tentei nada pra valer. Nem a tristeza de um fracasso válido eu tenho o direito de sentir. Claro, por isso mesmo a sinto ainda mais forte. Que vida! Das últimas vezes em que tenho escrito, não sinto meu desabafo se terminar. Acho que também não sei mais escrever. Com isso acabo de quebrar um recorde pessoal. Fiz tudo tão impecavelmente bem durante toda a minha vida pra chegar na crise de meia-meia idade vendo-me um acessório quebrado. Tanto faz. Eu não sirvo pra nada e não tenho mais paciência de sofrer por isso. Acho que esgotei meus sofrimentos poéticos na adolescência. Você visita meu blog secreto pra saber do que eu estou falando. Claro, muito já foi apagado. Você entra escondido na minha casa (que é dos meus pais), vai até meu quarto (que não é de ninguém) e lê meus diários. Eles são muitos. Esgotei meu talento ali. Eu era uma criança-prodígio e escolhi não ser mais nada. Acabei.